Gondar, Camelot de Africa

África Etiópia

Já foi capital. Um exemplo de desenvolvimento cultural e social. É Património Mundial da UNESCO (sim, são nove em toda a Etiópia, um recorde que o país partilha com a África do Sul) e muito se deve a cidade amuralhada. Também aqui, deixamos rastro. O Palácio Fasikadas – a principal infra-estrutura em ‘pé’ – tem influências indianas, árabes… e portuguesas. Há salas de banquetes. Auditórios. Igrejas. Armazéns. Banhos. Estábulos. Ou o que resta de tudo isso. Junto à piazza (os italianos deixaram algumas praças no país), que a norte concentra mais restaurantes. Fora da cidade, Fasiladas bath, em tamanho superior a uma piscina olímpica. É enchida uma vez por ano para as festas religiosas de Timkat, demorando mais de um mês a ficar com o nível de água desejado. Gondar foi muito avançado, para o seu tempo. Tal como as intrigas, que a destruíram. Preste João,  rei e senhor destas terras no início da Idade Média, falava em sumptuosidade e extrema riqueza na qual vivia. Tal como os seus súbditos. Prometeu aos reis da Europa 10.000 soldados a cavalo e 100.000 a pé para a reconquista destas terras, que assim voltariam aos cristãos. O objetivo de encontrar o reino de Preste Joao motivou as explorações portuguesas, que mudaram definitivamente o Mundo. Quando chegaram a Gondar, os portugueses não encontraram as prometidas riquezas. Nem qualquer poderio que ajudasse a reconquistar Jerusalém. Preste Joao não terá passado de lenda, tal como o seu reino. Nascida em carta falsa de monge alemão. Que terá tido o efeito desejado. A presença portuguesa na Etiópia foi efetiva. E passarei pela ponte construída na luta contra os mouros, que vitimou um dos filhos de Vasco da Gama.Gondar não tem muito mais para me dar. Cruzo a cidade em mochila, logo arranjo transporte para Bahir Dar. Damos incompreensíveis três voltas ao mercado antes de partirmos definitivamente. Não entra mais ninguém e perdemos quase uma hora entalados no trânsito. Mas não tenho pressa. O destino reserva-me boas surpresas….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?