Cheirinho das Simien Mountains

África Etiópia

Nada como uma noite bem dormida. Em Debark não há muito que fazer, pelo que madruguei no recolhimento aos meus aposentos. As 06h00 já em pé e pouco depois já o scout puxa por mim em caminhada de cinco quilómetros ate Limalimo. Será a minha parca experiência nas Simien. Um bom pretexto para voltar. Siderado por paisagens de sublime beleza. Sem fator humano a complicar.O frio aconselha passo ligeiro, mas o ‘velho’ militar, trajado a rigor – kalashnikov, faca de mato e binóculos – não abrandará o ritmo. Só o faz quando digo ‘foto’, para logo continuar. Cortamos por montes e vales. Passamos por casebres. Agricultores e pastores. Animais. Tudo em doses moderadas, menos a espectacularidade das paisagens.  Chegaremos a uma rocha em que nada mais há para a frente. Precipício de centenas de metros. É a paisagem da estrada que vai para norte, Aksum, de onde vim. Sento e aprecio. Mais tarde, leva-me a um segundo miradouro. Ainda o desafio para um terceiro. Todos eles fantásticos e diferentes.Com os seus binóculos aprecio o trabalho do campo a centenas e metros do meu olhar. Oferece-me um pão. Sem nada. Um manjar. Tirando água, nada mais tenho no organismo. Encontro duas crianças com um cavalo. Pedem foto. Sorriem, montam e desaparecem no horizonte. Que imagem…Voltaremos por caminho algo diferente. Encontro grupo de quase adultos. Arranham inglês. Cada um caminha uns 10 quilómetros para a escola. E outro tanto para regressar. Quando vou em minibus para Gondar, professor que entretanto conheço fala das mesmas dificuldades que no interior de Portugal. Há quem passe boa parte do dia sem comer. “E assim não conseguimos tirar nada dos alunos. Na Etiópia já não há fome como na seca dos anos 80, mas ainda há muita carência. Coisas que não existem no país do Vasco da Gama”, diz-me. Se soubesse o quanto somos parecidos com a Etiópia em coisas que não queremos….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?