Portuguese Bridge, só tu para nos fazer sofrer assim

África Etiópia

Quando penso que as dificuldades e o desconforto são completamente passado nesta longa viagem por África, cedo percebo que até as mais simples ilusões dão “azar”. Tenho de treinar a mente. Abstrair-me de traiçoeiros desejos mundanos.
A estrada de Bahir Dar rumo a Adis Abeba está bem pior do que o imaginado. E por isso mesmo o stress do motorista em controlar o tempo para os “parcos” 400 quilómetros da jornada, que termina a uns 150 da capital.
Apesar do mapa não indicar qualquer constrangimento, a verdade é que há demasiados troços desfeitos ou em vias de reparação/conclusão. De uma forma ou outra, atrasam consideravelmente qualquer viagem, além dos afáveis solavancos que tão bem fazem a um corpinho sequioso de relaxe e de massagem de mãos amigas.
As gargantas do Nilo são impressionantes e em pouco tempo temos alterações de altitude que rondarão os 2.000 metros. Estamos no topo de imponentes montanhas, descemos ao vale e o jipe empenha toda a sua energia para nova penosa subida. Por estradas tão sinuosas que vemos mais do que um veiculo despistado ou capotado. Com destaque para um autocarro que ficou a escassos metros de precipício mais do que fatal.
Finalmente, Ethio German Lodge. O nome promete. Estamos perto de Debre Libanos. Somos recebidos com inesperada frieza. Os quartos custam exatamente o dobro de há três semanas atrás, quando Augusto e Paola lá almoçaram. Dizem que fizeram obras que justificam a alteração.
O “responsável” não quer saber se gostamos ou não do facto, apenas questiona se ficamos ou não. Não faz esforço para nos convencer. Apetece partir, mas voltar à estrada, já noite, não é o melhor dos tónicos. E os meus amigos garantem que a vista do local é simplesmente arrebatadora.
Respiramos fundo. Não precisaremos de contar até 10. Ficamos. Encomendamos jantar. E assumimos idêntica atitude à do nosso pouco saudoso anfitrião. Para que entenda que também sabemos da poda, se quisermos.
No dia seguinte, perceberíamos a situação. A reserva – que ficou de ser feita por alguém que prestara serviços de bird watching aos meus amigos – foi feita demasiado em cima da hora. E seríamos os únicos hóspedes a dormir lá, pelo que mudamos os planos a todo o pessoal.
Os quartos são enormes. Mas entra frio pelas portas (frontal e traseira, onde a vista é soberba) e janelas. A água quente não está a funcionar e a fria rapidamente faz uma piscina no wc do meu quarto.
Melhor tentar dormir. De manhã cedo há babuínos e uma ponte portuguesa para ver….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?