Islão vs Cristianismo, na “voz” do íman Ishak

Médio Oriente Turquia

Releva o facto de não o reconhecer à primeira (agora não traja à civil) e recebe-me com a cordialidade da véspera. Está satisfeito com o meu interesse. Mais ainda por saber-me jornalista.
“Há muita incompreensão no ocidente sobre o islão. Incompreensão e ignorância. E algum medo, completamente infundado. É bom que haja quem possa esclarecer”, congratula-se Ishak, íman da Mesquita Azul.
Ambos teremos o tempo contado. Seria crime desperdiçá-lo em temas banais. Não demoro a quebrar o gelo: “O islão fala de igualdade entre todos os seres humanos, homens e mulheres, mas a verdade é que estas são relegadas, muitas vezes, a um papel secundário e, em muitas situações importantes para a sua vida, não têm direito de escolha. Por exemplo, não podem casar com alguém de outra religião, ao contrário dos homens”.
O meu interlocutor sabe que sou leigo em assuntos religiosos – confessei-o na véspera, quando marquei a audiência – e surpreende-se com a questão. É experiente e a sua serenidade não é beliscada. É com neutro ar cordial que debita o seu “conhecimento”.
“Assim como eu e você somos distintos, mesmo sendo homens, também há grandes diferenças na vocação e papel de ambos os sexos na sociedade. É natural. De forma alguma a função da mulher está subalternizada, pois o que lhe cabe na vida é do mais importante na comunidade. Por exemplo, haverá algo mais valioso do que a família e de cuidar do seu bem-estar?”, questiona.
Returco que a mulher deveria ter o direito e liberdade de escolha. Nem todas desejam a imensa felicidade de ter um papel que lhes é imposto. Claramente, não é tema que pretende discutir ao pormenor. Leva-me pelo caminho de cansativa retórica que – sabe-o bem – me “obriga” a rapidamente escolher outro tema, para não ficarmos encalhados.
Pago-lhe com o mesmo “amor”. Quero saber como se sente perante um islão em duas versões: uma mais tolerante, no qual a Turquia está mais integrado, e um outro, mais radical, que tem manchado e condicionado a sua imagem no Mundo.
“Está a ver o problema ao contrário. Na verdade, tolera e legitima as intervenções do ocidente em países menos desenvolvidos, mas depois repudia qualquer ato de defesa, resposta. Obviamente, não sou apologista da violência – seja em que forma for – porém devemos ir à génese dos problemas. Nada disto aconteceria se países como os Estados Unidos e seus aliados deixassem as nações islâmicas em paz, principalmente as mais vulneráveis”, atira. Ligeira pausa. Respira e prossegue: “Movidos apenas por sórdidos interesses económicos, tem sido feita uma guerra que também tem um lado religioso. De imposição de modelo de vida que não desejamos. Vivemos numa sociedade de informação. Os ocidentais deviam ser mais assertivos e ativos no controlo aos seus governos, nomeadamente aos que sistematicamente violam e desrespeitam os princípios humanos mais básicos”.
Infelizmente, concordo em boa parte da sua visão. Poderíamos ir por aí, no entanto seria crime desperdiçar esta oportunidade de mergulhar mais fundo no islão.
Ishak é metódico em todas as explicações. Veste fictício traje de professor. Diz-me que aos 11 anos já sabia o Corão de cor. “Cada uma das suas palavras. Por isso sei do que falo”.
E é com toda a sua sapiência – e inteligência – que deixa em mim ainda mais legítimas dúvidas quanto ao cristianismo. “Jesus é um dos nossos profetas, que muito respeitamos. Mas não é filho de Alá (Deus), que não tem par, semelhante ou família. Não foi concebido sem pecado, nasceu como todos os outros. A sua história e da sua mãe Maria estão retratadas mais fielmente – e sem fantasia – no Corão do que na Bíblia”.  Para que o possa confirmar oferece-me um exemplar. Trarei comigo três publicações para entender o seu Mundo.
Recorda-me que uma obra é inspirada pelos homens e outra tem raiz divina: “Durante 23 anos, Maomé recebeu revelações de Alá. Foi assim que nasceu o Corão (literalmente, “a recitação”)”. Sem o dizer direta e abertamente, argumenta de forma a fazer crer que o islão bate, tranquilamente, o cristianismo aos pontos, em termos de credibilidade.
“Numa religião, todos acabam no céu. Podem ter optado por uma vida de pecado, prejudicando terceiros, acabado até com a sua vida. Podem ser maus filhos, péssimos maridos e negligenciado o seu papel de pais, mas, se no fim se arrependem, acabam todos no céu. No islão isso é impossível. É em vida que tens de fazer por merecer a aprovação de Alá. Há toda uma vida de opções, de escolha de um caminho. No fim, serás julgado por isso”.
Nada a obstar. Estes e outros temas que abordamos já me deram motivos mais do que suficientes para me manter no meu canto. No pecaminoso caminho ateu.      .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?