TRILHO INFERNAL RUMO AO… PARAÍSO

Geórgia Médio Oriente

O clima não ajuda. Estamos num éden montanhoso e a chuva aparece em abundância mais do que a desejada. Acontece aos melhores. Neste caso, nada nos travará da demanda de percorrer a nossa Via Dolorosa para atingir o céu. Na mais do que desejada Ushguli.Contrato 4×4 e motorista logo à saída do Villa Mestia. Partimos com o dia fresco. São 46 quilómetros percorridos a velocidade tenebrosamente lenta. Só ao fim de quatro deliciosas e acidentadas horas chegamos. Por ásperos trilhos ladeados por aveludados verdes.A estrada que apenas abre parte do ano – quando estas terras altas são dominadas pela neve, há pouco a fazer – está em obras em vários pontos. E muitos mais há a remendar/construir.O nosso motorista é de poucas palavras. Não fala inglês. Quando o assunto é importante, liga à irmã, diz o que quer e passa-me o telemóvel à tradutora pessoal.Com soberbas montanhas a fazer peito aos envolventes vales, vamos trilhando o nosso caminho. Sobram picos nevados. Com mais de 4.000 metros. Temos muito gado bovino, demasiado magro. “Precisam estar magras para poderem trepar montes, subir encostas”, justificam-me, mais tarde.Um bulldozer corta a estrada. Tira toneladas de terra, enquanto ocupa toda a via. Motorista aproveita para mais um cigarro.
Vão desfilando casas semidestruídas. Em pedra. Como poemas esboçados no melhor papiro…cruzamos ribeiros. Fortes cursos de água invadem a via. A montanha jorra água por inúmeros ‘veios’ que a cicatrizam.A estrada é insuportável. Vamos acariciando, lentamente, as formas da montanha. Aparecem as primeiras torres que tornaram Ushguli Património Mundial da UNESCO.  lama toma conta de tudo quando, subitamente, Ushguli surge nas nossas vidas. É a aldeia permanentemente habitada mais alta da Europa.2.400 metros. E é, em si, um filme épico….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?