Fórmula 1 em alta montanha

Geórgia Médio Oriente

Como sempre, há que negociar o próximo transporte. As Marshkutas partiram ainda o sol dormitava e não temos essa necessidade de madrugar. Um sono retemperador exige-se, até porque a próxima noite promete ser mais atribulada.
Após várias abordagens, fecho negócio com motorista e seu orgulhoso jipe. Parece viatura apropriada para a ziguezagueante descida.
Estamos finalmente prontos. Bagagens acondicionadas, lugares ocupados. É tempo de partir. Temos perto de quatro horas até Zugdidi, onde apanharemos o comboio noturno para Tbilisi. Não temos ainda bilhete. Não o consegui comprar na internet – mesmo com ajuda de um local na sua lentíssima internet -, pelo que seguimos todos na expetativa.
Aos primeiros “acordes”, o nosso amigo logo mostra ao que vem: para impressionar as donzelas, brinda-nos com música alta e condução agressivamente má. Ou seja, arriscada, completamente inapropriada. Nada como uma viagem desconfortável e sem a possibilidade de desfrutar convenientemente da soberba paisagem.
Velocidade excessiva, ultrapassagens ‘cegas’ (poucas, pois o transito aqui rareia), cortar curvas, imensas tangentes às vacas habituais no meio da estrada, travagens demasiado em cima… Nada faltou ao cardápio deste vulto mais do que convencido que ainda merece uma oportunidade na Fórmula 1.
Os meus avisos são esquecidos um par de minutos depois. Os vários gritos de receio das meninas terão funcionado mais como um estimulante fetiche do que um sério alerta para atinar. Não o fez.
Chegaríamos sem qualquer incidente. Por mero acaso, apenas. Os condutores georgianos são do pior que tenho experienciado e este está, certamente, entre a irresponsável elite. Terá percebido, no fim, que, mais do que impressionar, foi, tão-somente, um palhaço. Fez figura de mero bobo da corte..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?