Georgia Military Highway

Geórgia Médio Oriente

Zaza volta à cena. O motorista que nos tinha levado a Gori, ao berço de Josef Estaline, é responsável por nos apresentar esta mítica rota. Uma das estradas mais intrigantes do Cáucaso. Um ex-líbris da engenharia da antiga União Soviética. O melhor caminho para apreciar a natureza virgem e a grandeza das montanhas do Cáucaso. Apetece-nos ficar sem folego.
O Mundo é pródigo em vias construídas por motivos políticos, militares ou económicos. Esta rota que liga a capital Tbilisi a Vladikvkaz, na Federação Russa da Ossétia do Norte, já existia há séculos: precária e com perigos vários entre os diversos cumes acima dos 5.000 metros. É muito mais antiga do que o nome sugere.
Por permitir o acesso a uma região considerada selvagem e sem lei, a estrada sempre teve conotações românticas, tanto na imaginação russa como na georgiana. Pushkin andou por aqui em 1829, mas as imponentes montanhas, os grandes desfiladeiros e vales imensos também inspiraram Tolstoy, Dumas e Gorky, que a retrataram na sua obra.
A Georgian Military Highway começou a ser trilhada pelo exército russo em 1799, dois anos antes de Alexandre I anexar o reino da Geórgia. Visava facilitar o movimento das tropas e a comunicação com o novo território. Foi concluída em 1863 e custou cinco milhões de euros, uma fortuna na altura.
Esta rota chegou a ter duas e três vias de passagem e robustas pontes em ferro sobre os violentos cursos de água oriundos do agreste relevo. Segue o percurso usado durante séculos por invasores e comerciantes, entre vales, picos, estreitas passagens, desfiladeiros, tuneis, igrejas, torres de defesa, aldeias remotas, fortes…
As demoras na fronteira e o fato desta estar regularmente fechada – estão pouco amigos estes vizinhos, após os russos se apoderarem, em 2008, da Abcásia e Ossétia do Sul – tem-lhe retirado importância. Isso só instiga a vontade de conhecer as paragens que inspiraram escritores de eleição e criaram temor a líderes militares.
À hora marcada Zaza já nos espera e às 09:30 já estamos a caminho de Kazbegui, ou Stepantsminda, como foi rebatizada a ultima povoação georgiana.
O país foi abençoado com paisagens estonteantes. E falta cada vez menos. Vamo-nos desembaraçando do buliço de Tbilisi e não tarda já temos paisagem rural. O gado continua a “mostrar-se” nas vias públicas e a estrada até fica momentaneamente cortada com o caos do gado caprino que vem das terras altas para ser vendido na cidade.
O reservatório de Zhinval, no sopé das crescentes montanhas, mostra-nos um espelho de água de cristalino azul-bebé. E conduz-nos ao complexo da igreja fortificada de Ananuri (século 17). Um dos pontos mais atrativos ao longo da estrada militar georgiana.
Há uma passagem a 2.395 metros que é o lugar mais alto onde o automóvel passa. Engolido pela imensidão aberta de imponentes montanhas com os picos nevados. Os verdes misturam-se. O ar é puro. Há sentimentos mistos de poder e pequenez. 
Há um poderoso anfiteatro de painéis em lugar igualmente mítico. Nova paragem. Mais do que justifica. Estas paragens não param de surpreender…     As condutas de gás (vêm da Rússia para a Geórgia e Arménia), qual corrimão de um ringue de futebol, já se confundem com a paisagem “urbana”, nas parcas aldeias que vamos cruzando.
A 2.170 metros de altitude, a igreja da Trindade (Tsminda Sameba). Projetada contra os imponentes 5.047 metros do Monte Kazbegi, é o final perfeito da jornada. Não surpreende que seja a habitual capa dos guias sobre o país. É com essa visão que almoçamos em dengosa esplanada.
Os taxistas não são cordiais na abordagem para nos levar ao topo. Rudes no trato. E gananciosos no preço. A estrada é muito má, embora compensada por trilhos ao longo de tapeçaria de flores silvestres.
A proximidade da fronteira com a Rússia ganha adeptos no grupo. Optamos por saborear mais calmamente o repasto e cenário. Queremos sorver daqui este cenário idílico.
Estomago feliz, metemo-nos a caminho. E em 300 metros logo somos travados pela polícia. “Ninguém passa”, diz, assertivamente, um deles. Incrédulos, ainda tentamos uma segunda vez…
Ao longo do frustrante regresso, perto de meia centena de possantes jipes pretos passam por nós a grande velocidade, oriundos de Tbilisi. Saberíamos, no dia seguinte, que parte de uma montanha aluiu. Arrastou casas, bloqueou um rio, matou pessoas… Espalhou o caos..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?