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Aeroporto Fantasma

Arménia Médio Oriente

                                           Ceder espaço ao imprevisto tem-me proporcionado algumas das melhores experiências de vida. E na vida. Seria maçudo elenca-las agora. Esta nota de rodapé apenas relembra esta atitude em viagem – e no dia-a-dia -, esta aversão ao “tudo organizadinho e planificado ao milímetro”. Não é para mim. Nunca foi. Jamais será.
Queremos ir a um mosteiro… ao qual podemos aceder através do maior teleférico do Mundo (palavras deles, não minhas). Cinco quilómetros a sobrevoar montanhas. Bem melhor do que o ziguezagueante caminho.
Comprar alguns mantimentos para o longo dia e metemo-nos a caminho. O GPS é tao bom que não reconhece o destino, como acontece em muitos dos lugares por onde andamos. Apenas temos a nossa localização… e assim nos vamos guiando. É assim que a saída de Goris tem uma “opção” rural. O vento leva-nos a explorar novos caminhos ao invés da estrada já conhecida.
A última rua da cidade é cenário de guerra. Tudo bem com as amigáveis casinhas, mas a subida ingreme está repleta de crateras. Um bom teste para o jipezinho que não se tem portado mal de todo.
No meio do nada, já só entre verdes e floridas colinas, uma idosa. Paramos. Não resisto a cumprimenta-la. E regista-la em fotografia. Fico “in love”…
Vagabundeamos rumo ao mosteiro quando surge estranha indicação para o… aeroporto. Bom, estranha será demasiado. Digamos apenas invulgar. Surpreendente.
OB-VIA-MENTE pisca à esquerda e vamos explorar. Até porque a estrutura é percetível à distância do olhar.
Um monte de ruínas. Portão enferrujado e a cadeado. Tento transpô-lo, até que um militar espreita à janela. E desaparece. Antes que me barre a entrada, finjo não perceber que é propriedade do exército e avanço. Uma ou outra foto, não vá ser impedido de o fazer quando a companhia chegar.
Em um minuto já está junto a nós. Entretanto, todo o grupo já está no complexo. O soldado terá quarentas e muitos. E não fala inglês. Está desconfortável com a nossa presença. Confuso quanto à forma como correr connosco, explicando a natureza da infraestrutura.
Vamos comunicando por gestos. Tento que perceba que, mais do que lamentar a degradação do complexo, estou embeiçado pela sua beleza. Tem algo de poesia, este abandono.
Quando pensamos que não há alternativa e nos dirigimos à entrada, o nosso amigo solta um amigável “coffee”? Nem hesitamos! Oportunidade única de investigar o velho aeroporto por dentro.
Parece um filme futurista, pós apocalíptico. Fosse eu realizador e este cenário seria o protagonista. Neste caso, todo o filme rodaria em torno desta infraestrutura. Merece o esforço.
Percebemos que vive aqui. Sozinho. Numa pequena cama estilhaçada. Com uma tv minúscula e com imagem de má qualidade. Um poster de uma asiática em decente bikini é a sua única companhia. O café é feito numa resistência antiga. Tem de trocar os fios numa parede para a ligar.
Percebemos que tem dois filhos. E que a sua solitária missão ali tem anos. É complexo militar desativado. Funcionou essencialmente na guerra de Nagorno Karabakh, que terminou há… 20 anos. Está perto da fronteira com esse semi-país que deixou de integrar o Azerbaijão, mas que também não quer ser Arménia. E o Mundo ainda não se entendeu quanto ao seu reconhecimento internacional.
Tem um ar verdadeiramente amigável. E aprecia tanto a nossa companhia como nós nos deliciamos com a sua e esta experiência. Mais genuína, impossível. Isto não vem em qualquer roteiro de viagem.
O café transpira borra. Seria um sacrifício toma-lo, não fosse este estado de enfeitiçamento em que me sinto. São estas inesperadas e improváveis experiências que alimentam a minha paixão pelas viagens.
Faço uma vistoria ao lugar. Vigiado por um pequeno e ruidoso canino, que se esconde atabalhoadamente mal me dirijo a ele. Não tem pinta de herói. Mas é fofo. Há sala de embarque. Controlo de check in. Placas informativas em língua que não entendo.
Posará connosco para a eternidade. As despedidas são cordiais. E o seu braço acena no ar até que desaparecemos no horizonte…
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?