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“We are the Mountains”

Médio Oriente Nagorno-Karabakh

De manhã, a prioridade é ir ao Ministério dos Negócios Estrangeiros tratar do visto. Sabemos que podemos pisar o risco, mas o carimbo de Nagorno Karabakh é dos mais desejados. Quem tem mais de 35 anos, saberá do que falo…
Leio muita informação. Díspar nos preços. Percebo que ter tratado do visto em Yerevan não só me iria roubar tempo, como encarecer todo o processo. Três euros. Três eurinhos é tudo o que pagamos para estarmos oficiais. Desta vez, orgulhos dentro da lei.
O funcionário é da maior simpatia. Aproveitamos que fala inglês para o questionar com uma série de dúvidas. Vai respondendo, enquanto os temas são lhe são confortáveis.
Assegura que já 23 nações reconhecem Nagorno Karabakh como um país. Um Estado independente. Entre eles, cita os Estados Unidos e a França. Não confirmei, mas é estranho. Sabendo da capacidade de mobilização, persuasão de ambos junto dos seus aliados internacionais.
A teoria do nosso interlocutor resvala nas fotos exibidas no ministério. Tirando uma visita oficial à Arménia – que toma este território como parte de si – e um acordo de cooperação com o parlamento da Lituânia, nada mais mostra o propalado reconhecimento internacional. Por isso, não integra as diversas organizações mundiais. As maiores e mais “credíveis”.
Termina a conversa quando lhe dizemos que, oficialmente, não saímos da Arménia. Não tivemos de mostrar passaporte. Não há uma clara separação. Gentil, despede-se e desaparece num ápice.
No exterior do edifício, posamos orgulhosamente para a foto com os vistos. E procuramos alguma recordação de Nagorno Karabakh. O negócio dos souvenires ainda tem muito por onde explorar. Visitamos uma igreja recomendada que, afinal, nada tem que se destaque das demais. E vamos ao ex-líbris do país.
“We are the mountains”. A estátua que simboliza a nação é, de facto, o orgulho desta gente. Difícil encontrar uma nesga de tempo só para nós. Para usufruirmos, sem “ruído”, dos enormes rostos em madeira – de um idoso e uma mulher – em cima da verdejante colina. Mesmo aos pés da cidade. À saída de Stepanakert.
Há jovens teenagers que se entusiasmam com a nossa presença. Uma é mais atrevida no inglês e servirá de tradutora. A excitação de falar com estrangeiros tolhe-lhe parte do discernimento. Muitos risinhos. E sorrisos para a foto.
Sairemos em busca de um mercado. Encontramos umas vendedoras. Desejamos mais. Encontraremos o que procuramos. Cerejas é o fruto que mais encanta as nossas donzelas. Tomaremos conta de uns quilos que desaparecem enquanto visitamos a praça. Frutas, legumes, comidas. Roupa e quinquilharias. E muitas velhotas de farta barba e bigode. As idosas das nossas aldeias perderiam aos pontos. Neste concurso, ficariam fora do pódio olímpico.
Há o memorial dos soldados que pereceram na guerra da independência, mas preferimos investir o nosso tempo no terreno. Em Aghdam.
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?