You have to go back!

Europa Rússia

Escolho guichet do serviço de estrangeiros e fronteiras com a “Nikita” que à distância capta a minha atenção. Afinal, não é todos os dias que me estreio na Rússia. Que seja memorável! Cara esguia, pescoço altivo. Cabelo claro, penetrantes olhos azuis. E ar bem mais sério do que seria desejável. Avanço e sorrio, tentando quebrar o gelo. “Go back! You must go back!”, diz. Seca. Isaura acompanhava-me, mas não é permitido. Dá um passo atrás, surpreendida. Nikita não quer saber, e insiste: “Go back behind the red line”. Não havia contato visual, mas Isaura percebeu bem. Como eu. E todos os outros. Sweet mother Russia… Nikita olha-me, impaciente. Estende a mão para recolher o passaporte. Entrego-o enquanto a fito. Vejo que percebe. Impenetrável. Não quer saber dos meus doces olhos castanhos… Não interessa. Serão meros segundos, penso. Com efeito, assim é. Despeço-me com esgar de olhos. E a máquina-Nikita no seu tom imperturbável. Isaura avança. Demora o mesmo minuto que eu. Bill Sorridente volta a entrar em cena. De orelha a orelha, como o seu nome. O minuto passa. Tal como o segundo, terceiro… o meu amigo vai mudando de semblante até ficar só Bill. O seu sorriso já era… “Tenho de ir para trás, xau”. Atira, sem olhar, e desaparece. Xau como?? Para trás?? “O que se passa???”, pergunto-lhe, em sms. Estou sem bateria. Milagrosamente, tenho o tempo suficiente para copiar o número comunicarmos pelo tlm da Isaura. “Dizem que o meu documento não serve para entrar na Rússia. Tenho de esperar”. Todos os passageiros já passaram a “fronteira”. Devíamos chegar a S. Petersburgo às 00:10, mas temos uma hora de atraso. E já passou mais uma. Aproximo-me de zona proibida – não posso voltar atrás no posto de controlo que passei – onde Bill Sorridente, policia e funcionário da Lufthansa discutem a situação. Que não está fácil. “You must go back. In the next flight. 06:00. You have no VISA”, sentencia o polícia. Na verdade, Bill foi convidado pelo Ministério do Desporto da Rússia para um evento Mundial. E soa a falha de comunicação interna. Bem difícil de resolver às 03:00 AM. Tento ajudar. Argumento o melhor que posso e peço apenas mais umas horas, “para que possa, efetivamente, resolver a situação, com as pessoas que podem esclarecer, ajudar, acordadas”. Contactos para Portugal, após tentativas falhadas para conhecimentos da Rússia implicados na situação. Passa mais uma hora e nada muda. Do lado de cá, deixamos de ter contacto visual. Os guichets de controlo de passaporte já fecharam todos. Presumimos que é desta que a viagem começa com grande pé esquerdo. Que toda a sorte do Mundo com vistos ficou no Ruanda… A história tem tantas nuances, que daria um romance. Desnecessário. De todo. São 04:00. Subitamente, Bill aparece, com o seu inconfundível sorriso, que estimula o nosso. E nem a posterior “bandeirada” de taxi para a cidade nos desanima. Muito menos o facto deste nos ter deixado no hotel errado. Nem o facto de, quando acertamos no Radisson, percebemos que a Diana não está cá, como era suposto e me tinha comunicado uma hora antes. What a hell, o que podemos esperar neste país??.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?