In the Navy

Europa Rússia

Em Portugal, jamais se poderia imaginar algo assim. Ninguém quer saber dos feriados a não ser pela folga ao trabalho. Acredito que nem eu saiba muito bem o motivo dos feriados que correspondem a esses belos dias-extra de paragem.
S. Petersburgo estáem festa. Bemébria. Sobra álcool. E camisolas às listas horizontais, azuis e brancas. Bem como boinas. Tanto em homens, como em vaidosas donzelas. Este é o dia da Marinha. E nunca imaginei ser possível o orgulho que isso instiga. Tanto nos próprios, como nos seus amigos e entes queridos.
Tanto entusiasmo dá fome. E não é assim tão fácil descobrir restaurantes perto do Hermitage. Bom, até encontramos, mas não propriamente o que desejamos.
Acabamos por nos afundar numa cave. Cativa-nos a forma como se apresentam no exterior e descemos a espreitar. A casa da nossa avó num bunker, que tal? É esse o espírito. Um local com charme e encanto sui generis. Onde mais poderia deparar-me com José Saramago no wc? Cada compartimento da casa de banho, mista, é minuciosamente decorado. Uma, tem livros, com o nosso Nobel à cabeça. Outra, máquinas de escrever, livros e costas de cadeiras pregadas às paredes. Sem limites para a criatividade, sempre com bom gosto.
Há pinturas nas paredes, toalhinhas “centenárias” a cobrir as mesas enriquecidas por comidinha gourmet. Confiamos na sorridente donzela que nos serve e experimentamos petiscos sem tradução para linguagem universal. Este cirílico dá-nos cabo da cabeça…
Vislumbramos o Hermitage pela primeira vez, deambulamos pela enorme praça que o abraça. Declinamos, gentilmente, fotos com personagens históricos, que ganham assim a vida. Voltaremos…
As bandeiras da marinha estão por todo o lado. Nos fontanários há miúdos e bem graúdos em animado banho. E o álcool cada vez mais presente. Até nos eufóricos condutores, muitos com os carros apinhados de gente bem ébria.
Cruzamos o Neva e já estamos em outra ilha. Voltamos a encontrar casamentos. O babado casal tira fotos com aplicados profissionais, enquanto os convidados arrastam consigo as bebidas e comidas. Em arcas de campismo. Vão conversando entre si. Tanto estilo justificava algo mais… relaxado. Tiram-se selfies e fotos ao Hermitage, do outro lado do castanho lençol de água. Cruzado, permanentemente, por lanchas e pequenos cruzeiros.
O Forte de Pedro e Paulo está em outra ilha, mas cada vez mais próximo. A ordem é andar. E vamos seguindo o trajeto mais curto.
Há uma réplica do Flying Dutchman ancorada e que agora é restaurante. A embarcação é impressionante. Acredito que jantar aqui seja uma experiência singular.
Chegaremos ao forte e à sua bem concorrida praia. Parcos metros quadrados de areia com aspeto duvidoso em água turva que não oferece dúvida alguma. E é arrojada aventura arranjar um metro quadrado de espaço.
É tempo de saciar a sede. O calor andará pelos 30 e andar assim deixa marcas. Sentamo-nos no pequeno parque e assistimos e invulgar campeonato: imaginem uma pista de bowling ao ar livre. Uns cinco paus cilíndricos dispostos sempre em configuração distinta. E alguém que arremessa um pau bem maior – e pesado – na tentativa de desfazer a “construção” e atirar cada obstáculo para as calendas. Pois bem, o corpo descansou enquanto a mente se entreteve com este espetáculo. Que tem seguidores…
À noite procuramos, especificamente, um restaurante russo. Acredite-se ou não, é missão desafiante. Há cozinha georgiana, ucraniana e “internacional”, porém a tipicamente nativa é mais difícil.
A caminho da nossa perdição encontramos Carlos. Melhor, ele encontra-nos. Ouve falar português e interpela-nos. Está em esplanada com amiga russa. É de Leiria. Trabalhou na Noruega, até se cansar do “mau tempo e da comida que não valia nada”.
“S. Petersburgo é uma grande cidade. Tem tudo o que desejo. Estou aqui há dois anos e não está nos meus planos sair”, assume.
Indica-nos um “tasco” ucraniano, com muito bom aspeto, a uns 200 metrose lá voltamos nós às catacumbas. Sob o olhar da donzela com fato tradicional, devoro um pequeno pote com mistura de carnes e legumes. Nem se atrevam a pedir-me o nome da especialidade…
Os quilómetros acumulados nas pernas enviam-nos para casa pouco após a hora do coche se transformar em abóbora….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?