Crazy Russian Night‏

Europa Rússia

Bill Sorridente é cidadão do Mundo. Convite de alta patente russa não convém ser recusado. É idolatrado por estas bandas e fazem questão de contar com a sua companhia ao jantar. Não sei bem porquê, faz depender o “sim” da minha humilde aceitação. Faz questão de partilharmos esta noite, que sabemos ir ser memorável. “É para a desgraça, vamos juntos”, diz-me. Não tenho argumentos para desarmar o desafio de um Amigo.
Saber que serei presenteado com a melhor da gastronomia russa acompanhada dos melhores vinhos e bebidas espirituosas do planeta deixa-me na dúvida. Como não visto o papel de “donzela difícil”, deixo que a amizade prevaleça e dou o meu “sim”. Nada que uma boa Amizade possa negar.
Elena vem apanhar-nos ao hotel. E conduz-nos para fora da cidade – este post é um salto no tempo, fresquinho, fresquinho, mas não convém revelar tudo – até a uma zona onde vivem alguns dos mais ricos do país. E, acreditem, por estas bandas não falta dinheiro.
Chegamos como convidados honorários. Seremos 11 em fausta mesa. Chegamos e já os convivas vão adiantados. Nada de irresolúvel neste país com surpreendente bom receber. E com refeições com final sempre incerto. Há sempre espaço e motivo para algo mais.
Sei que serei presenteado com três vinhos do melhor que provei até hoje. Recordo que foram inúmeros os brindes, boa parte deles com vodka, sem dúvida inigualável em termos do que provei até hoje. E, como se o estado ébrio geral não bastasse, ainda terminamos com um licor que, até ao momento, não decifrei do que se trata.
O mais surrealista não é a bebida de eleição ou a diversificada comida de torturar o palato. No melhor dos sentidos: durante todo o jantar, tivemos uma tradutora. Ninguém fala inglês. E Elena é o centro de todas as conversas. Da sua capacidade tradutora dependeria boa parte do êxito do jantar.
“Mr. Barbosa, é uma excelente surpresa. O que precisar na Rússia, diga-me e nenhuma dificuldade será suficiente para não ter uma estada excelente no nosso país. Diga-me o que precisa e conte que faremos o melhor para satisfazer os seus desejos”.
Estas palavras, de quem realmente “pode”, soam-me a muita mistura alcoólica. Mas são verdadeiras. E de alguém que realmente existe. E realmente pode. E que, por caprichos de nome, prefere tratar-me por Barbosa. É que Rui – ou algo semelhante a “..ui” – em russo significa pénis. Assim sendo, e porque há donzelas na mesa, o apelido da minha querida mãe é o nome adotado.
Na Rússia, todos querem fazer brindes. Alguém discursa, e fazemos um brinde. Alguém deseja comentar o discurso, e lá estamos novamente de copoem riste. Emparcos minutos, já as pernas tremem e ainda mal começamos. Como aguentam estes russos???
Recordo uma extensa variedade de cogumelos. Lembro de vegetais sem fim. E misturas das quais destaco veado e salmão. Há entradas, prato principal e sopa. No fim, novas entradas e prato principal. Tenho de insistir pela sobremesa para não ser obrigado a uma terceira refeição numa só.
“Let’s go to a night club? This night it’s yours and there is nothing you can’t have”, traduz Elena. As palavras são do amável anfitrião. Eu fico-me por aqui. Melhor terminar algo que está ser perfeito. E Bill Sorridente está na mesma onda. Felizmente, entendemo-nos bem.
“A noite acaba agora, mas para a semana continuamos. Temos de honrar o total descontrolo russo”, diz-nos o patrono do jantar. Claro que sim, como recusar?
O restaurante é do mais cativante onde estive até hoje. E, acreditem, tenho sido um homem de sorte. É um marco histórico. “Representa bem o país e o seu espírito”, asseguram-nos. Acredito. Todoem madeira. Com motivos históricos. Um serviço de primeira. Comida de qualidade única. E tudo oferecido. Posso pedir mais? No relato da história, melhor ficarmo-nos pelas entradas….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?