Sem-abrigo, o calor de Moscovo‏

Europa Rússia

Oferece-me vodka, que gentilmente recuso. Insiste posteriormente com um perfume, que amavelmente declino. Fala-me como se o entendesse na perfeição. Respondo-lhe em simpático português e o seu sorriso abre-se. Estamos minutos em aluada cavaqueira e ambos rimos.
Aqui, a comunicação é diferente. A verbal, simplesmente irrelevante. O meu “amigo” é marginalizado pela sua sociedade. Está com mais um “casal” de sem-abrigo em banco de jardim. Bebendo e saciando a fome. Está empenhado a repartir o que de melhor tem com um completo estranho. Normalmente é assim: quem pouco tem, sabe os valores da partilha.
Não beberei, nem comerei. Mas acedo a levar em mim o odor com que se passeia em sociedade. Colocar umas gotas de perfume em vários pontos do corpo é gesto que o deixa verdadeiramente satisfeito. Sente que há “ligação”.
Este cinquentão/sessentão é marginalizado, nem por isso tolo. Na verdade, tenta exprimir-se em várias línguas. Arranha uns termos em italiano, outros em alemão. Inventa em francês. Nada em inglês. Apesar de ouvido rígido, conhecimentos de seis línguas permitem-me entender. “Comunicar”. Acompanha-lo nesse caminho.
Estamos em banco de jardim na avenida Tverskoy, no fim da extensa exposição fotográfica sobre a construção dos mais de 9.000 quilómetros de linhas de caminho-de-ferro entre Moscovo e Vladivostok. O Transiberiano.
Na verdade, uma daquelas empreitadas só ao alcance de grandes sonhadores e melhores executantes. Do outro lado da questão, imensas vidas perdidas. Este foi também o início de várias cidades. Equipas de trabalho que se mudaram. Famílias inteiras que transformaram a sua vida. Os casamentos que se proporcionaram. As igrejas que mantinham a fé. Os espetáculos itinerantes para manter a moral elevada. A visita dos chefes de Estado aos heróis que, com a sua vida, mudaram a Rússia.
São imagens de acampamentos que foram ganhando forma e dimensão até se transformarem em aldeias. Depois, em vilas e cidades.
Ao início da avenida Tverskoy, uma máquina automática de “fast-food”. Com as bebidas e comida habituais, nesta zona do planeta. O que me faz mencioná-la? O tamanho. Apenas isso. De proporções… bíblicas. A ponto de ser uma atração turística para muitos locais. Entra a moeda, é colocado o número e lá vai um braço mecânico em longa aventura até encontrar o pedido.
As mudanças no centro de Moscovo não acompanham o capitalismo exacerbado no exterior da sua área metropolitana – sobram gigantescos centros comerciais entalados entre autoestradas com seis vias – mas é um facto que as coisas estão a mudar…
Abraço forte o meu novo amigo, cumprimento os seus companheiros e sigo viagem. Apreciadoras da cena, sou abordado com um conjunto de amas filipinas. Retêm-me mais uns bons minutos. Queixam-se do custo do visto para trabalhar um ano, mas elogiam os salários. Lamentam o rigor do inverno, mas sorriem com os 30º que hoje nos abraçam. Muitos sorrisos e que a vida me corra bem. A vocês também, minhas queridas.
É hora de deixar que Moscovo continue a surpreender-me….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?