Magia em Sergiyev Posad‏

Europa

Muito resumidamente, o anel dourado é um conjunto de cidades históricas a nordeste de Moscovo, com virtudes tais que as levaram a ser classificadas de “Museus ao ar livre”. Os melhores exemplos da arquitetura russa entre os séculos XII e XVIII estão patentes no seu singular ADN. São as povoações mais pitorescas do país, nos seus Kremlins, mosteiros, catedrais e igrejas. Sergiyev Posad, Pereslavl-Zalesskiy, Rostov Velikiy, Yaroslavl, Kostroma, Ivanovo, Suzdal, Vladimir são as oito “magníficas”. As mais proeminentes. Mas também podemos surpreender-nos em  Gus-KhrustalnyRybinsk, Uglich, Myshkin e Alexandrov.
Claro está, começo pelo princísergiev_posad_ss_01_bigpio. E só tenho de fazer70 quilómetrosem comboio. Entreoutras coisas, sou movido pelas famosas cúpulas. Coloridas e em forma de deliciosa cebola. O seu mosteiro fundando em 1345 por Sérgio de Radonej, um dos mais venerados santos do país, é um dos principais centros espirituais da Rússia e, em boa verdade, o que justifica qualquer viagem. Património Mundial da UNESCO desde 1993. Uma sedutora combinação de forte e mosteiro. É aqui que são formados os guias espirituais da igreja ortodoxa. Residência de mais de 300 monges.
O comboio chega uma hora e picos depois de sair da estação Yaroslavsky, de onde parte a cada 30 minutos. As primeiras abordagens locais falham. “Monastery. Big monastery”, insisto.Em vão. Até que alguém aponta o caminho. Indicações dúbias, longe de convencer totalmente, aconselham a oportuna pausa para almoço. Uzbeque funcionária de restaurante de “shopping”, que comunica comigo em alemão, dá-me as definitivas indicações. A cidade tem uns 120.000 habitantes. Apesar do seu aspeto rural, não é propriamente uma aldeia.
Mal tenho tempo de digerir o almoço quando, não muitos passos depois, avisto a imponência do mosteiro. Aqueles primeiros segundos, a uns elevados 500 metros de distância, bastam para justificar a viagem. Mas quero mais. Muito mais.
Desço a colina e em breve estou em monumento de homenagem aos que pereceram na II Guerra Mundial. A honra aos filhos da nação parece obrigatória em cada lugar. Logo de seguida, vou furando pelos parcos vendedores de rua e em breve estou às portas da fortaleza.
Inspiro. E estou pronto para o conto de fadas. Logo noto o excelente estado de conservação de todo o complexo. O que mais cativa? As cores. A diversidade da arquitetura, verdadeiramente única. Ao longo dos tempos foram vários os pretextos para se ir enriquecendo o património religioso deste belo mosteiro. Embeiço-me pelas cebolas coloridas. Contemplo os religiosos. Respeito os fiéis. Aprecio e congratulo-me com a pureza da abertura deste espaço ao público, sem qualquer custo, algo raro por estas bandas.
Há fiéis em devotos beijos a diversos ícones religiosos. Há quem reze durante horas. Sempre em pose submissa. O corpo curva-se. O espírito também. A grandiosidade e espetacularidade destes monumentos impõem respeito. Ainda bem que não é fim de semana. Tenho a oportunidade de saborear a história. Sem pressas. Este lugar é um dos de maior peregrinação no país, mas hoje tudo é calmo. Sereno.
As donzelas trajam lenço na cabeça. Assim manda a religião. Mas muitas não se coíbem de mostrar as curvas. Em roupagem mais ou menos ousada. Mais ou menos insinuante. Irrelevante: o cabelo é que tem de estar protegido…
Há várias igrejas para explorar. Frescos de grandes mestres para apreciar. Há uma magnífica iconóstase que se destaca pela última Ceia. Neste caso, a obra-prima de Simon Ushakov. Coleções medievais podem ser apreciadas no museu, o único local que exige bilhete.
A Revolução de 1917 fechou o lugar em 1920. Os edifícios perderam o caráter religioso, transformados e prédios públicos e museus. Dez anos depois, os sinos do mosteiro foram destruídos. Em 1945, e na sequência de temporal tolerância religiosa de Joseph Stalin, o mosteiro regressou às mãos da igreja ortodoxa.
Dentro destas paredes espessas, destaca-se igualmente uma fonte sagrada. Da qual também bebo. Não muda a minha vida, não purifica o meu interior, nem me torna crente. Mas sacia-me a sede. Que bem me sabe…
.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?