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Milenar Suzdal…‏

Europa Rússia

Suzdal é daqueles lugares que não se esquece. E que bem merece ser desejado uma vida. Não tanto pela beleza natural, que a tem, mas pela história, arquitetura. Pelo peso da atmosfera. Da sua indubitável capacidade de nos transportar no tempo. A uma era que começou em 1024. Sim, há espessos 1000 anos…
Sem dúvida, um dos lugares mais charmosos e tranquilos da Rússia. Tem caminhos que parecem vaguear sem destino, entrelaçados num impressionante número de fantásticos exemplos de arquitetura religiosa. Destacam-se, a meus olhos, as cúpulas (“cebolas”) coloridas e as estruturasem madeira. Já foi tempo em que esta pacata localidade – inevitável que o turismo a adultere – tinha 40 igrejas para… 400 famílias. Dá para imaginar?
As casas rústicas parecem imutáveis, presas a uma época distante. Os seus 10.000 habitantes andam sem correrias. O ambiente continua rural, bucólico. Há um rio. Riachos. Caminhos por asfaltar. Hortas e jardins. Cavalos e coches (no inverno as rodas são substituídas por esquis e mantas) que piscam o olho ao turismo. Como se não bastasse o facto de ser Património Mundial da UNESCO. E, provavelmente, o lugar mais desejado das oito cidades carregadas de história e arquitetura do anel dourado.
Mais do que uma tortuosa visita de um dia desde Moscovo (comboio de200 quilómetrospara Vladimir, mais meia hora de autocarro para cá – autocarro desde Moscovo pode ser um pesadelo de transito), Suzdal “sente-se” dormindo cá. Permanecendo. Percebendo e disfrutando as várias fases do dia. O sereno despertar, com crianças a banhar-se no rio. As tardes soalheiras com idosos a trabalhar a terra. O por do sol em tonalidades únicas. As cúpulas em sucessivas transformações de luz. E as noites de aldeia remota, um balcão privilegiado para as estrelas.
Deparo-me com dois mercados e há um terceiro em execução. À esquerda, aquele que os visitantes mais procuram, com as inevitáveis matrioskas. Tem os ímanes, moedas antigas, pins, pequena quinquilharia diversa de souvenires, gorros, roupa típica… O expectável. À direita, as bábshkas (avós) vendem as verduras que produzem. Sem o aspeto dos modernos supermercados, mas com todo o sabor. O paladar de uma vida dedicada à terra e aos seus frutos. As avós são queridas em todo o lado. Apenas muda o traje. Regalo-me com a magia da sua simples existência. Da sua tenaz presença…
Na praça de entrada da aldeia – talvez o lugar menos cativante do povoado, geminado com… Évora – hippies montam um mercado que se espreguiça em forma arredondada. Aplicados forasteiros a edificar uma estrutura em madeira para uma feira de semanas. Promete…
Em qualquer ponto da aldeia há algo para apreciar. Nem que seja o imenso céu em brilhante azul. Todo o imenso Património de Suzdal está em excelente estado de conservação. Os donativos dos fiéis são boa ajuda. Infelizmente, alguns espaços estão fechados. Abrem somente para a cerimónia religiosa. Isso deixa-nos tempo suplementar para desfrutar da paz e tranquilidade deste lugar.
Há quem o faça em pequenos “cruzeiros” (na verdade, parecem jangadas gigantes, com direito a cobertura) no rio. Nas suas margens, há famílias inteiras em intemporal pic nic. Há quem tome banho. Ouve-se jovem excitação, o único vestígio sonoro humano desta doce pacatez.
Eu? Dedico-me a uma espetada de salmão com legumes grelhados. Não é o prato mais típico da Rússia, mas é nestes contrastes que melhor entendemos a riqueza da diversidade. Acreditem, Suzdal terá tempo para me mostrar algumas das suas iguarias….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?