Just… Suzdal‏

Europa Rússia

A beleza e grandiosidade de Suzdal ganham dimensão adicional quando a história as contextualiza. Tempos idos que permanecem na atmosfera de pequena aldeia guardiã de mil anos de contos e lendas incrustados num verdadeiro museu ao ar livre no mais encantadoramente rustico dos ambientes.
É o exemplo do convento da Interseção. Tristemente famoso pelo facto de ser o lugar escolhido pelos czares para enviar as mulheres que, de algum modo, não os satisfaziam. Também os nobres escolhiam esta “prisão” para, de forma unilateral e cruel, tornar esposas e filhas freiras. Sem direto a escolha.
Uma das proscritas por um czar, por ser estéril, acabou por dar à luz. Para evitar a ira do seu esposo, fingiu o enterro do pequeno. No final do século passado, escavou-se o suposto túmulo e encontrou-se, tal qual narrava a lenda, um boneco em lugar dos ossos. O bastardo viveu… 
Pedro o Grande também enclausurou aqui a primeira mulher. Pelo simples facto de que desejou desposar uma alemã. Imagino que a serenidade deste convento tenha levado umas quantas donzelas à loucura da reclusão.
Este projeto religioso tem espólio único pela riqueza e nobreza daqueles a quem serviu.
O maior dos mosteiros é o de Santo Eufémio Redentor, de 1352. Alberga numerosos edifícios dos séculos XVI e XVII e tem mais de 10 museus. Destacam-se ampla coleção de livros russos antigos e o túmulo do príncipe Dmitri Pozharksi, o herói do levantamento russo de 1612 contra o domínio polaco. Entre 1764 e 1950 também serviu de prisão para dissidentes religiosos e políticos. Na II Guerra Mundial, um “paraíso” do Exército Vermelho.
Mereceu a atenção de Estaline. O ditador aproveitou celas de monges para aqui estabelecer um dos seus horrendos Gulag, terríveis e desumanos campos de concentração e trabalhos forçados. Quantas vezes, destinados a quem apenas ousava questionar, duvidar ou simplesmente não partilhar a divindade das suas ideias.
O museu de arquitetura de madeira mostra como eram as aldeias há séculos atrás. Coloridas casas feitas da natureza, com moinhos e celeiros. A igreja de São Nicolau foi transferida para aqui em 1960 para enriquecer o espólio do projeto. Quanto aos museus, pena que sem guia seja complicado entender as repetidas e exclusivas referências no ininteligível cirílico.
A catedral da Natividade da Mãe de Deus, do século XIII, é um dos meus exemplares preferidos. Inconfundível, pelas suas cinco cúpulas azuis decoradas com estrelas… a ouro. Destaca-se sobre os restantes edifícios e palácios do Kremlin. Tem igualmente inserido pequeno museu.
O património arquitetónico envolvido pelo Kremlin (fortaleza) de Suzdal é reconhecido pela UNESCO, com o Património Mundial a proteger, desde 1992, os “Monumentos Brancos de Vladimir e Suzdal”, referindo-se à cor da singular pedra que erigiu estas povoações. Suzdal rivaliza com S. Petersburgo e Moscovo, precisamente por ser a antítese destas. E não menos encantadora…
Suzdal ainda mantém um olhar rural com riachos, prados e animais soltos em todos os lugares. Esta justaposição de arquitetura medieval deslumbrante com o seu ambiente pastoral empresta-lhe um encanto pitoresco que cativa artistas de verão e os seus cavaletes, uma visão comum. Encontro uma chinesa de Pequim embeiçada num recanto improvável. “Somos um grupo de 14 pintores. Estaremos cá uma semana para captar a essência deste paraíso”, confessa-me.
Congratulo-me com o facto da perceção e consciência – mesmo nos últimos tempos soviéticos – do potencial turístico de Suzdal ter impedido a adulteração do seu espírito (nomeadamente, com edifícios modernos), salvaguardando-se o seu envolvente ambiente campestre….
Quando regressar – e sei que o farei – quero voltar a apreciar idosas a lavar roupa no rio ou a vender legumes em Mercado improvisado. Quero ver gado solto na aldeia. Quero ter os olhos nas cúpulas coloridas ou no singular céu estrelado. Desejo ouvir o silêncio ecológico deste verdadeiro museu de 1000 anos.
Se optar pelo inverno, com o rio gelado, andarei de trenó e partilharei com um estranho um banquinho e buraco no gelo, à espera que o peixe me faça feliz.

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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?