Rumo a Assuão

Egito Médio Oriente

Irredutíveis. Os caminhos de ferro egípcios não permitem que os turistas viagem em qualquer comboio diurno. Há apenas um que nos é permitido e sai do Cairo às 20:00. Com camas. E fartura de guardas armados. “É para a vossa segurança”, reforça o funcionário do concorrido guichet.
100 dólares para fazer Cairo-Assuão é uma brutalidade. Atrever-me-ia a chamar-lhe pornografia, não fosse este um país islâmico e muito suscetível a estes termos. Um “non sense” que, naturalmente, atira toda a gente para o avião, habitualmente mais barato. E sem dúvidas quanto à rapidez.
O grupo BornFreee Experience debate o passo seguinte. Patrícia é a única que deseja, profundamente, experimentar o comboio, o meu meio de transporte favorito. Fieis ao lema “amigo não empata amigo”, seguiremos ambos por essa via, enquanto os restantes companheiros de aventura voarão nessa noite. Encontrar-nos-emos na manha seguinte em Assuão. Não chegaremos a estar separados.
Meia hora de caminhada de mochila que começa a ter dificuldades em fechar. Metro eficaz. Desta vez, Patricia não segue na carruagem exclusiva para mulheres, que tinha experimentado dias antes com a Helena e restantes elementos femininos do nosso grupo. A estação é um buliço constante, o comboio bem longo e apenas uma carruagem parece “normal”, sem sair de um filme de terror. É a nossa, pois claro.
Apenas uma solitária coreana se nos junta no rol de turistas a bordo. É bicho do mato e não chegamos a dialogar. Com todos os luxos, servem-nos o jantar. Delicioso, mesmo tendo em conta a fome que já faz mossa. O pequeno-almoço é igualmente… faustoso. A inesperada ausência de bebida é compensada… com pequenas garrafas de vinho que seguem na mochila. E não podiam ser usadas em melhor altura. “À nossa, Patrícia!!”.
Este é o meu melhor sono no Egito. Durmo mais e melhor. E tenho várias horas para contemplar o país rural. Sorver as singulares e cativantes imagens que o Nilo nos oferece.
Avisto apenas um enorme cruzeiro no rio. No Cairo, Assuão e Luxor atropelam-se grandes embarcações no cais. A ganhar crosta. Sem clientes. O Nilo prossegue com pequenas feluccas. E pescadores. Há garças. E toda uma imobilidade que se espraia pachorrenta desde tempos bem distantes. Pouco terá mudado aqui, desde o domínio dos faraós.
Mudamos claramente de cenário. E é todo um filme que passa sob o nosso ávido olhar..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?