Núbios e natureza exótica

Egito Médio Oriente

Terá sido o cansaço extremo a fazer-me adormecer. Já não quero saber da mosquitagem e os intestinos que se aguentem. Avisei-os que me estou a borrifar para os seus humores. Não quero saber o que me vão aprontar (bluff, claro!!). “Aterro” por completo.
Um suave embalar, meio raio de sol ou impercetível onda a esbater-se na praia onde estamos ancorados terá sido responsável pelo meu ténue despertar. Pachorrento. Não sou o primeiro. Há quem já contemple a vista fabulosa. Cenário invejável. E como tudo é diferente quanto não há fatores secundários a chatear…
Prescindimos do pequeno-almoço (para quê desafiar, novamente, a sorte?). E rasgamos as águas do Nilo, deambulando entre ilhas e monumentos que embelezam o estuário de Assuão.
A vela vai mudando de direção. O céu move-se muito lentamente. O sol brinda-nos com a sua luz e aquece-nos o rosto. Não temos pressa de chegar a lado algum. Serenidade…
Queremos ver uma aldeia Núbia. Este povo cuja presença se estende daqui ao Sudão e que tem língua própria. Apenas falada, não escrita. Atracamos e logo temos o pretenso chefe da aldeia a impor-se como guia. Não apreciamos a ideia. Perceberá que o roteiro é nosso, não o oposto.
Uma comunidade muito pobre, com condições de vida básica. Em meia dúzia de voltas verificamos que pouco vai mudar nos que vamos explorando. Há crianças que dão alegria ao lugar. E idosas na soleira das portas. Como que imutáveis no tempo. Os animais cirandam sem controle. Como em toda a África.
Os núbios – com a construção da barragem de Assuão, muitas aldeias ficaram submersas e muita gente foi deslocada –  têm geralmente pele mais escura e não é raro encontrar elementos com olhos claros. Têm uma beleza exótica que não passa despercebida. As mulheres adoram tatuagens de “henna” negra nas mãos e rosto. São muçulmanos e as mulheres superprotegidas do contacto com estrangeiros…
De volta à água… dois jovens em cima de prancha de surf. Pagaiam com pequenos pedaços de cartão. E agarram-se aos turísticos barcos a motor que cruzam o Nilo. Ao nosso, à vela, tudo mais fácil. Depois, percebemos que não estão sós na arte. Outra dupla atraca. Grudam e cantam. Quase à desgarrada. Um medley muito mal-amanhado… em busca de uns quantos cobres. Por vezes, arriscam demasiado nestas águas nem sempre isenta de perigos…
A ilha de Kitchener não pode escapar ao nosso roteiro. Imperdíveis os seus jardins luxuriantes, com espécimes de todo o Mundo. Os Açores também cá estão representados. Palmeiras, coqueiros, tamareiras… e imensas aves em exótica sinfonia diária. Também aqui as portuguesas fazem sucesso…
As horas passam e hoje temos de chegar a Luxor. Vamos ter  saudades….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?