PÂNICO

Egito Médio Oriente

Ouvem-se gritos. Curtos, mas sonoros. De susto. O barulho pode ser de um tiro. Seco. Também pode ser uma pedra. Pancada que faz mossa. Estou confuso. Olho para duas filas à frente e Ana e Gonçalo estão brancos. Olhar de espanto. Estupefação. Isabel Moura está de costas, não lhe vejo reação.
Tudo acontece num ápice. Um instante. Meio fragmento de momento. Sereno quando não vejo sangue. Acalmo quando o ar misto de surpresa e pânico dá lugar a um tímido esboço de sorriso. Na verdade, mais de alívio. Interiormente, todos expiramos. Longamente.
Ainda não sabemos o que foi. Apenas que bateu violentamente na janela do comboio, partindo o vidro. Valeu-lhes o facto de ser duplo. O exterior, completamente estilhaçado. O interior, a melhor proteção possível. Alguém arremessou uma pedra? Foi projetada por um camião? A dúvida persistirá.
Todos se levantam. Espreitam e comentam. Não sei árabe, mas não é complicado imaginar o que se diz. Burburinho que se arrasta. Acabamos por brincar com a situação, volvidos poucos minutos. Podia ter corrido bastante mal. Não foi o caso.  
Momentos antes, confusão quanto aos lugares que ocupamos. Aos escassos turistas, mandam-nos comprar bilhete no comboio. Os locais, fazem-no na bilheteira. Com lugar marcado. Depois de alguns protestos alheios, por ocuparmos os seus assentos, acabamos por fixar os “nossos” lugares. Desde que sentados nos mesmos. Contamos com a compreensão local.
Mesmo que a viagem entre Assuão e Luxor demore apenas umas três horas, a verdade é que são muitos os que carregam em demasia. Como se de uma longa jornada se tratasse. As nossas mochilas/malas não estão sozinhas. Há quem lhes faça boa concorrência. No tamanho e no peso. Uma feira. Uma pandemónio em cada estação na azáfama de quem força a entrada antes de concluída a saída de quem chegou ao destino.
Indiferente a estes detalhes, o Nilo vai-nos acompanhando. O sol vai desmaiando do lado de la do rio. Os vidros estão sujos em demasia e não permitem a melhor das visões…
Chegaremos a Luxor noite feita. E poucos minutos depois já temos notícias que nos vão deixar em êxtase….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?