Mergulho frustrado

Egito Médio Oriente

Estou na pontinha do barco. Está sol e o azul-turquesa estende-se até ao infinito. Tenho bom peso às costas. E o fato está tão justo que mal me consigo mover, respirar. Tenho a mão a segurar a máscara e o tubo que conduz oxigénio à boca. Olho o horizonte, como me é pedido. E dou o necessário passo em frente…
Splash!! …  Sim, o meu primeiro mergulho.
Quando, instantes depois, volto à tona, a sensação não é agradável. A máscara deixou entrar água. Demasiada. E não é suposto. Nunca lidei bem com água nos olhos (abertos) ou a entrar pelo nariz. Dois sentidos vitais que me baralham, em caso de desconforto.
Recomposto, instantes depois insisto e começo o processo de tentar baixar aos 10 metros. As instruções de segurança e de procedimentos foram dadas no caminho do barco para alto mar. Estada tudo mais ou menos apreendido. Duvidas que se intensificam quando a ação se desvia da norma.
Ao baixar, a máscara continua a ceder. E não me parece que deva ser assim. O instrutor diz-me para ter confiança, mas afigura-se-me complicado, se continuo a ter água dentro da máscara, que é suposto proteger olhos e nariz.
O desconforto é grande e crescente. O otimismo esmorece e a confiança definha. Não descerei aos desejados 10 metros neste primeiro mergulho. Limito-me a fazer snorkling.
À tona, as águas não são tão serenas. Quando subo ao barco, não preciso esgotar o primeiro minuto para vomitar todo o pequeno-almoço… Fico melhor.
Entretanto, o Gonçalo (perito em mergulho) explora as profundezas do Mar Morto, a Ana (que apenas lhe falta fazer o exame para ter a licença) regozija-se no Mundo que a apaixona e a multidisciplinar Patricia parece uma sereia em águas distantes…
Já fora da água, Gonçalo estranha o meu desconforto. Diz-me para inspirar com a mascara colocada. Cai. Dá-me a sua e sugere que repita a ação. Fica presa ao rosto. É um facto. A que levei tem folgas várias, pelo que teria água permanentemente.
No segundo mergulho, um par de horas depois e em lugar distinto, sigo com a sua máscara. Também não se adapta de forma perfeita, nem aquela que o instrutor me dá (a sua), que está ainda mais desajustada. Novamente a do Gonçalo. Desta vez, já não tenho fato de mergulho. As águas não são assim tao frias. Levo o resto do equipamento.
A confiança é vital, no mergulho. Tal como o conforto. E o estarmos cientes do que fazemos, pois quando corre mal… corre mesmo mal. Tinha acabado de partilhar o exemplo de amiga inglesa que ficou internada um bom par de meses, longe de casa, após mergulho mal sucedido na Indonésia. E há muitos anos que mergulha. Esteve dois anos sem poder voar… Para mim, seria privar-me de “vida”.
Digo ao instrutor que não desejo baixar os 10-12 metros, nem fazer os supostos exercícios de respiração a este nível. Retirar e voltar a colocar a alimentação do oxigénio ou deixar entrar água pela parte de cima da mascara e expeli-la por baixo com o meu expirar. Quero apenas curtir o possível.
É assim que vamos até um nível máximo de três metros de profundidade. E ali está um Mundo com fascínio ímpar… já tinha saudades do snorkling feito nas Filipinas e Belize. Estar uns metros sob a superfície, verdadeiramente indiscritível. Por isso o sinal “divino” quando aparece um polvo, que se esconde na rocha, quando me vê aproximar. Entretanto, inúmeros peixes de cores impossíveis… uma idílica hora de ponta submarina.
Nesta estreia, que também contou com bom sol, refastelado na proa, esperava experiência diferente, menos acidentada e bem mais estimulante. Paciência. Cheguei a terra com uma certeza: é para repetir! Da próxima vez, tudo vai correr como é suposto.
Quanto aos meus amigos, a Ana já contará como foi…  .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?