Felinos “doces”

Egito Médio Oriente

Desperto, espreguiço-me e saio para a varanda que me liga ao Mar Vermelho. Na verdade, é um aconchegante recanto com mesinha, cadeiras e degraus envoltos em natureza que me deixam a parcos metros de água.
Subitamente, sou acossado por um felino. Enrosca-se às pernas de tal forma que mal me deixa caminhar. Um gato tao, mas tao dengoso… a um nível tal, que julguei estar ainda a sonhar. É por este querido – e por outros – que se torna impossível deixar de falar dos “felinos” que nos adocicaram a estadia no hotel de charme que nos recebeu em El Gouna.
Serão uma dezena, de rédea solta. Cada um mais “doce” do que o outro. Interagem de forma natural com os hóspedes, mesmo que nem todos achem piada a esta cumplicidade fácil. Provavelmente, não sabem que os gatos há muito tempo que foram considerados sagrados no Egito.
Porquê? Simples: ajudaram os antigos egípcios a combater um de seus piores inimigos – os ratos que infestavam a região, destruindo as colheitas de grãos e cereais, além de espalharem doenças. Quando notaram que os gatos eram a solução para controlar a população de roedores, os egípcios começaram a tratar os bichanos como membros da família e passaram a encará-los como verdadeiras divindades. Essa adoração teve de contar com a ajuda das autoridades, porque, antes de o animal ser decretado um ente sagrado, muitos gatos eram servidos como prato principal às margens do rio Nilo.
Os egípcios dedicavam tamanha veneração aos gatos que costumavam raspar as sobrancelhas em sinal de luto quando um animal de estimação morria. As mulheres também os viam como símbolos de beleza e pintavam os olhos tentando imitar o contorno perfeito do seu olhar. Mereciam os mesmos ritos fúnebres que os seres humanos, sendo embalsamados e sepultados. No século XIX, arqueólogos descobriram mais de 300 mil múmias de gatos num cemitério em Tall Bastah, cidade no delta do rio Nilo.
No entanto, tamanha adoração custou pelo menos uma derrota histórica para o Império Egípcio, cerca de 600 anos antes de Cristo. Quando um comandante persa (Cambises II) soube que os inimigos da terra do Nilo veneravam tanto esses felinos, não teve dúvidas e ordenou que seu exército atacasse o país das pirâmides usando uma tática insólita: gatos foram colocados à frente das suas tropas, sendo usados como escudo. E então? Simplesmente, os egípcios não ofereceram resistência. Era melhor renderem-se aos persas do que assumir a possibilidade de ferir um ser sagrado.
Quanto a mim, apenas continuo a afagar a cabeça ao meu terno novo amiguinho e delicio-me com o seu ar zen, imaginando que é assim que reajo quando recebo um cafune….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?