Rumo a Alexandria

Egito Médio Oriente

Coisa pouca. 650 quilómetros. É o que nos espera hoje. Entre El Gouna, no Mar Vermelho, e Alexandria, no Mediterrâneo. De autocarro. Com o ar condicionado avariado, a debitar, permanentemente, puro inverno para cima de mim. Nada como improvisar. Com uma simples folha, enrolada e enroscada no “buraco”, atirei essa estação para outras paragens. Soa a aviso de que iriamos sentir cada quilómetro…
A costa do Mar Vermelho é de ficção. Tudo árido. E empreendimentos improváveis em locais inconcebíveis. Luxo, nem sempre bom gosto. Na verdade, não entendo o que fixa esta gente aqui. Não há verde. Nem beleza. As praias não são propriamente “utilizáveis”.
A novela que desfila em variadíssimos episódios é mesmo egípcia. E os locais vão com os olhos presos nas minúsculas televisões do bus. Como habitualmente, estas novelas retratam um Mundo que o comum dos mortais apenas sonha. Tudo gente bonita. Endinheirada. Com modos e vidas muito próprios.
Afinal, vamos mesmo fazer escala no Cairo. Entramos na sua densidade de 25 milhões de habitantes e vamos até ao centro. Investimos no coração do caos para troca de passageiros. Meia-hora depois, regressamos à estrada que, diga-se, está quase sempre em bom estado. Esta África tem outras infraestruturas.
A autoestrada confunde-nos. Tem duas faixas para cada lado (ao lado, há mais estrada… com tantos ou mais carros) e as portagens não têm ninguém. Nem sequer para cobrar. As prometidas nove horas de viagem já foram cumpridas quando temos nova paragem técnica. Mau sinal. Significa que ainda falta mais do que desejaríamos.
A quantidade de luzes diz-nos que devemos estar, finalmente, em Alexandria. Meia hora depois, entramos em central de camionagem fechada. Espaço amplo, com restaurantes e lojas. Muito bem organizado. Quase um Mundo à parte.
O primeiro taxista tem um carro tao velho que nos surpreende como consegue andar. Abre a bagageira para metermos as malas… e tem uma corda e roupa a secar. Estimula o nosso sorriso. Na verdade, caberá lá a minha mochila e pouco mais. Agradecemos a gentileza, mas procuraremos plano B.
Não tarda, já estamos a caminho da marginal, onde estamos instalados. O preço é combinado e insisto no valor, para que não haja confusões. No destino, de pouco adiantou. Dá discussão. Deixo mais uma nota, equivalente a acréscimo de 20 por cento, mas continua insatisfeito. Azar. Dou meia volta e subo ao hotel. De todos por onde andei neste planeta, certamente aquele com entrada menos… sedutora. Tanto no rés-do-chão (nada faz supor que há ali um hotel… que, na verdade, são dois ou três), como no sétimo andar.
Instalamo-nos e estamos prontos. Alexandria convida-nos e estamos desejosos de bom peixe.
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?