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Alexandria, o Glamour da decadência

Egito Médio Oriente

Poucas cidades no Mundo têm uma história tão rica como Alexandria. Ainda menos testemunharam tantos eventos históricos e lendários. Fundada por Alexandre, o Grande em 331 AC, tornou-se a capital do Egito Greco-Romano. O seu status ficou simbolizado pelo Pharos, um farol de enormes proporções (entre 115 e 150 metros de altura) que era uma das sete maravilhas do Mundo antigo, das quais apenas sobrevivem as pirâmides do Egito. Definitivamente destruído nos terramotos de 1303 e 1323. No seu topo, tinha um enorme espelho que refletia luz durante o dia. À noite, era o fogo que dominava os céus e guiava os barcos…
A Biblioteca de Alexandria foi a maior do Mundo antigo e o lugar onde grandes filósofos e cientistas vinham em busca de conhecimento. A nova biblioteca, financiada por dezenas de governos e organismos internacionais, não lhe fica atrás. Claramente, o símbolo de uma nova Alexandria, saudosa da sua influência de tempos idos.
Foi também nesta cidade (atualmente, a segunda maior do país, com cinco milhões de habitantes) que se enraizou a maior comunidade judaica do planeta da altura, o que habitualmente se traduzia em riqueza e desenvolvimento. A primeira tradução grega da bíblia hebraica também decorreu aqui.
As catacumbas de Kom el Shoqafa eram consideradas uma das sete maravilhas do Mundo medieval…
Na verdade, Alexandria apenas perdia para Roma em tamanho e riqueza. Foi capital do Egito durante mil anos, até à conquista muçulmana. Foi histórico porto comercial e Marco Polo descreveu-o em 1300 como um dos mais movimentados do Mundo, juntamente com Quanzhou, na China. Até Napoleão por cá passou na conquista do Egito.
Renasceu várias vezes das cinzas, mas teve maiores dificuldades em lidar com a loucura do nacionalista Gamal Abdel Nasser (1950), que proibiu os estrangeiros de possuir ou gerir empresas. Muitos milhares abandonaram o país, incluindo a forte e influente comunidade grega, só esta estimada em 150.000.
Um golpe com efeitos mais nefastos do que as sucessivas conquistas da cidade, que, ainda assim, deixaram vasta e riquíssima herança cultural. Alexandria beneficiou da ligação do Mediterrâneo ao Mar vermelho, pelo que foi ponto privilegiado do encontro das culturas da Europa, África e Ásia.
Alexandria é família aristocrata que já vendeu todos os anéis… Precisa de uma lavagem e pintura.  A cidade continua “empoeirada”. Um pálido lustre do que já foi. Sobra-lhe o glamour de uma cidade cosmopolita em decadência….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?