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“VIOLENTAMENTE ESPANCADO”… no Avião

Espanha Europa

“E se for apanhado a fumar nos lavatórios, será… VIOLENTAMENTE ESPANCADO!!”. Estou incrédulo. Trata-se das medidas de segurança. Já estamos instalados no avião e este é o inesperado início das tiradas que vão arrancar muitos sorrisos aos passageiros. Logo levanta muitos narizes em busca do surpreendente autor do ousado aviso.
Ainda estamos a saborear o inesperado encontro (Eu, Marcos e Carla) no aeroporto – ainda por cima, com bilhetes seguidos – quando o destreinado ouvido nos prende para as “informações” sonoras invulgares do chefe de cabine.
Pelo mesmo emissor, ficamos igualmente a saber que vamos para a “muy nobre, leal e sempre invicta”, terra natal de Manoel de Oliveira. “Que realizou, entre outros, o filme Aniki… BOBO”. O compasso de espera não deixa dúvidas. A insólita personagem quer deixar marca. Dá uns quantos mais dados inúteis e, no fim, atira: “Perguntar-se-ão qual a utilidade de todas estas informações para o voo. Pois bem, ABSOLUTAMENTE NENHUMA”.
As palmas que recebe, endereça-as às três colegas que partilham consigo a responsabilidade de uma viagem sem incidentes. “Elas merecem muito mais do que eu”, assegura. E apresenta uma a uma, pedindo à que está na retaguarda para aparecer (insinua que está escondida, envergonhada pelas suas palavras), pois os passageiros “desejam” conhece-la.
Os sorrisos que arranca rivalizam com as (muitas) palmas que lhe distribuem. No mesmo tom sério e taciturno, arranca mais umas quantas gargalhadas: “Por favor, peço que não se riam. Estou a passar um mau bocado. A vida não está fácil. Peço que se contenham”. Este voo promete…
Conta que, no dia anterior, a voar de Paris, terminou a sua intervenção deixando aos passageiros o desafio de meditarem sobre uma frase de Pedro Abrunhosa “a uma dessas revistas de inutilidades”. E qual a revelação? “Eu já toquei na rua por uma sandwich”.
Em pleno voo, o nosso amigo vendeu artigos como nunca vi num voo comercial. Espalhou sorrisos e boa disposição. Foi profissional com o que lhe competia. E fez a diferença. Não digo o seu nome nem onde trabalha, por respeito. É que, na mesma companhia, um colega de profissão, com atitude semelhante, viu castrada a sua indolência. Talvez por incapacidade de atingir o “glamour” deste ousado chefe de cabine.  .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?