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LOST IN TRANSLATION

Ásia China

Viajar de forma independente na China não é dos exercícios mais simples. Ainda assim, qualquer pessoa desenrascada o faz, mesmo que esbarre em permanentes barreiras, principalmente linguísticas.
No Yunnan são raríssimos os casos que temos encontrado de falantes de inglês. A presença de Jinuye Xie tem facilitado sobremaneira a serena execução dos nossos planos. Antes da minha amiga reforçar definitivamente o grupo, quando deixarmos Kunming, sou brindado com telefonema da recepção.
Não falam inglês, desligo. Minutos depois, batem à porta. Duas mulheres, separadas por uns 15 anos. 25, a mais nova. Estou em toalha, saído do banho. Não se incomodam. Falam-me em mandarim. Replico em inglês. Inútil. Brinco de seguida com português. Falam entre si com ar de quem tem dilema para resolver. E eu aguento… Acho que já chega. Interrompo. Faço gesto de telemóvel, para ligarem a alguém que fale inglês. A mais jovem percebe e sai a voar. E fico ali, na entrada do quarto,  com funcionária que, agora, me parece uns 10 anos mais experiente. A singular situação desbloqueia quando a colega regressa. A arfar. Mostra-me o telemóvel. Tem mensagem escrita. Em péssimo inglês. Mas acho que percebo. Visto algo leve e desço à recepção.  A bela jovem também não estudou inglês. Não tenho a reserva comigo e não sei quanto devo. Vou dando as notas de 100 yuan. Uma a uma. Ate lhe bastarem. Pego nas mesmas notas e faço-as dobrar, contando cada uma das extremidades. Não entende o humor. Pudera, sei que latinos e chineses não partilham a mesma forma de levar a vida. É tarde, vou dormir.
As 07h30 Jinuye Xie está à porta do hotel. Era o combinado. 15 minutos mais tarde, na concorrida estação de comboios. Partiremos pouco depois para novas latitudes. Cada vez mais estimulantes. Seis horas de viagem musicalmente animada. Temos grupo misto. Unido por tatuagens.  E alteram melodias chinesas com pirosices romanticas em inglês, que vao trauteando. Nada a ver. Felizmente. Os contrastes enriquecem as viagens. E facilitam a comunicação e partilha. As paisagens realçam o amarelo de erva que não decifro. Estamos empolgados. A caminho de Dali….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?