VELHO MERCADO XIZHOU

Ásia China

A chiadeira faz lembrar a tradição bárbara que persiste em Portugal. Eque tem os suínos por infelizes protagonistas, às mãos da insensibilidade humana. Afinal, é apenas uma criança de dois anos e tal a quem querem rapar o cabelo. Mãe e suposta tia. E a máscula cabeleireira. Parecem insuficientes para travar o desespero do catraio.  Na verdade, quando vejo o resultado final, acho que devia ter berrado bem mais. Máquina zero de lado e atrás. Apenas cabelo da nuca para a frente. Estilo ‘malga’ na testa.Pergunto porque este corte. Se tem algum significado especial. “Porque é bonito”, ripostam. Nada a argumentar. A minha viola já está no saco. Ou no cesto. O mesmo em que uma outra senhora transporta uma criança. Serena e aparentemente confortável. Partilha o espaço com as verduras e outras compras. O mercado espraia-se sobretudo numa longa rua. Infelizmente, hoje não há comércio de animais vivos. É especial, garantem-me. Fico-me pelas vendedoras em coloridos trajes étnicos. Chá. Flores. E um pouco de tudo. Não é para turista, mas para os locais. A ‘história’ nos rostos vale mais do que qualquer produto exótico. Há um dentista a laborar em sala minúscula, aberta para a rua. Vende também itens de caráter turístico. Singular. Pergunto por preço de chapéu. Deixa a idosa cliente de boca aberta. Literalmente. E vem atender-me. O colorido barrete vem em boa altura. Sol aperta e o cabelo não abunda. Agradece os cerca de quatro euros e volta ao seu ofício. Dá o toque para almoço. Imediata barafunda com centenas de crianças e adolescentes, devidamente trajados, a sair a correr da escola. Mais sorrisos, alguns ‘hello’ e a vida continua… Aqui tudo é genuíno e  tem história. Sinto que não estou neste tempo. Recebo simpatia e sorrisos. Iguais na diferença. E que privilégio….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?