“Horizontes Perdidos”

Ásia China Tibete

Ganden Songzaglin parece um grupo de antigos castelos. Esta maravilha arquitetónica segue o exemplo do palácio de Potala, em Lasa, e é o maior mosteiro budista tibetano na província do Yunnan. Começou a ser erigido em 1679 e foi completado em apenas dois anos. Parece um grupo de antigos castelos. É composto por dois conventos, Zhacang e Jikang. Alberga uma comunidade de uns 700 monges (já foram uns 2.000), que habitam as cerca de 200 pequenas casas no interior do complexo.
Fica nos arredores de Shangri-La e hoje é hora de conhecermos esta magnífica obra. O bilhete não é barato, uns 17 euros. Ao menos, dá direito a viagem de autocarro até ao sopé da montanha Foping, a apenas uns minutos de distância.
Enfeitiça, um lugar destes. Ainda mais quando sob o imenso azul do firmamento abraçado à quente luz solar. Mexe com o nosso íntimo.
Antes de entrar, exploro o lago adjacente e embeiço-me pelos inúmeros porquinhos de tenra idade que vagueiam livremente pela paisagem. Em contraste com a vida mais agitada dos muitos patos que, em contraponto, me proporcionaram a mais surreal cena sadomasoquista que algum dia podia imaginar, no Mundo animal. Para partilhar apenas em circuitos íntimos…
Esperam-me paredes adornadas a frescos retratando contos e lendas budistas. Este mosteiro é um museu, um sem fim de tesouros. Há muitas figuras de buda, candeeiros de ouro, incensos de prata… dinheiro à mão de semear, tantos os donativos dos fiéis. Basta esticar a mão… ao contrário de outros países budistas, em que as ofertas estão bem protegidas. Nesta atmosfera misteriosa, estão mescladas, em invulgar harmonia, as culturas tibetana com a etnia Han, da maioria chinesa.
A Revolução Cultural protagonizada por Mao Tsé-Tung praticamente destruiu esta joia, reconstruída em 1983.
Exploro todos os recantos. Proliferam monges que agem como se não estivéssemos ali. Comem e oram. Ou lavam as suas roupas e apetrechos de cozinha. Parece que flutuam na paisagem, em todo e qualquer cenário. Mas desço à terra quando verifico que, afinal, também eles, já estão “possuídos” pelo demo: as novas tecnologias. Smartphones que fazem o meu encolher-se de humildade.
Diariamente, os tibetanos da zona de Shangri-La deslocam-se até aqui para rezar, enquanto contornam o mosteiro. Completam voltas em número de vezes ímpar. Respeitando a ordem dos ponteiros do relógio. Quem não tem muita pressa, caminha em torno de todo o complexo, um percurso bem maior do que o simples mosteiro principal. A diferença entre um par de minutos ou meia hora.
É aqui, nesta secular rota bem mais ampla, que o contacto com os locais é mais facilitado. O que mais surpreende? Crentes que, a cada passo, batem com as suas testas e joelhos no chão. Levantando-se em seguida, para novo curto avanço. Ar de frete? Nem por isso. Olhares de inacreditável paz interior.
Há novos e velhos, mas estes dominam. Os primeiros, provavelmente a trabalhar. Sento-me com três tibetanos de idade mais avançada. Vêm diariamente para aqui. “Há muitos anos. Não temos muito que fazer. Então vamos falando e entretendo-nos. Raramente terminamos o dia com menos de uma dezena de voltas. Tratamos da mente e do corpo”, explica o mais expedito. Com a preciosa tradução de Jinyu Xie.
Então tão curiosos connosco como nós com eles. E não entendem bem porque atravessei o planeta para estar ali. Porque tinha este fetiche de Shangri-La. Esta geração ainda encarna o espírito de Horizontes Perdidos, a obra de James Hilton que em 1933 embeiçou o Mundo.
“As escrituras tibetanas budistas, onde os seres humanos, animais e natureza vivem em harmonia sob a liderança de um tibetano…”, escreveu o inglês. Foi isto que vim ver. É (parte) disto que encontro….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?