Palavra, Mariana?

Ásia Birmânia

À hora combinada, o seu sorriso atravessa a rotunda. Flutua do edifício da autarquia até à entrada mais próxima do pagode Sule. Os dentinhos brilham como a sua aura quando atira: “Deves ser o Rui, certo”?
Certo, Mariana. Sou eu. Palavra. Daniel, Ana e Maria acompanham-me. Também estão curiosos e com fome. Seremos cinco num jantar que acabaria em seis. Isto é o que acontece quando a minha amiga e colega de trabalho Cecília me revela, entusiasmada, que Mariana Palavra é a pessoa certa para conhecer na Birmânia.
Mariana é jornalista. Nortenha que há muitos anos abraçou o Mundo, deixando amarras e laços por onde passou: destacam-se as suas experiências no Haiti e Macau. Agora, é a vez da Birmânia.
Em ritmo compassado, após as breves apresentações dirigimo-nos ao restaurante que o Tripadvisor insiste em colocar no topo. Porque será? A excelente comida? O ambiente intimista? A decoração artística? O sorriso de quem cá trabalha?
Mariana já diz boas palavras em birmanês. E já parece bem rotinada com o menu. As suas escolhas são aprovadas. E o que (não) sobrou vale como ovação pelas opções certeiras que nos tornam ainda mais curiosos pela gastronomia birmanesa.
A conversa flui a um ritmo que só abranda quando as iguarias começam a espraiar-se pela mesa. Desde o nosso Portugal – encantos e desencantos – ao terramoto no Haiti, uma das maiores experiencias de vida de Mariana. Impressiona, o relato. Fica a ideia de que tudo foi tão mau que quem integrou a missão humanitária não tinha tempo para pensar na sua condição. De humano.
Macau também lhe deu muito. Agora a missão é na cada vez mais procurada Birmânia. Sobram elogios, também alguns “reparos” e impressões que mostram as duas faces do país.
A norte, há conflitos. Há uma etnia de um milhão “enjaulada” em campos de refugiados. O poder fecha os olhos. Inclusivamente o partido liderado por Aung San Suu Ky, Prémio Nóbel da Paz em 1991. A terceira filha de Aung San, considerado o “pai” da Birmânia atual.
Para nos situarmos, em 1990 o seu partido Liga Nacional pela Democracia (LND) obteve 59 por cento dos votos, mas, em vez de assumir o lugar de primeira-ministra, foi detida pela junta militar e colocada em prisão domiciliária. Durante 15 anos. A forte pressão internacional levou à sua libertação em 2010. Agora lidera o partido. Um dos que fecha os olhos às atrocidades cometidas no norte do seu país.
Mariana não é dúbia nas palavras. Facilmente sabemos do que gosta e o que a incomoda. Não é de zonas cinzentas, no discurso. Seja na política ou em temas rotineiros. Entretanto, vamos saboreando legumes, carnes e molhos.
Mato saudades uma boa lassi que em menos de 15 minutos me atira para o wc “à caçador”. Merecido. Os quatro dias apocalípticos que em 2011 vivi na India por ter abusado da bebida à base de iogurte e que tem o condão de me… deviam ser aviso suficiente.
A noite estende-se serena quando um trolley avança e anuncia um novo passageiro: Patricia chega de longa viagem desde Portugal. Fez escala em Banguecoque e, finalmente, entra na experiência Bornfreee. Estamos em andamento, mas chega mais do que a tempo para ser protagonista de uma viagem que deixará forte marca em todos nós….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?