15 horas de pura Birmânia

Ásia Birmânia

O sol ainda está em sereno descanso quando já estamos na estação de comboio de Yangon. Aconselharam-me a aparecer às 05:30 para comprar o bilhete, mas o entusiasmo – e prevenção – fez-nos chegar meia hora mais cedo. Melhor evitar confusões de multidões. Cenário que, definitivamente, não acontece.
Ainda assim, o edifício colonial já tem vida considerável. Não somos os únicos a madrugar. Há monges, vendedores e passageiros de sobra que nos vão acompanhar para Mandalay. É o único comboio do dia que liga estas cidades, que distam uns 550 quilómetros entre si. O que nos espera? Apenas 15 horinhas de arcaica e deliciosa viagem.
Os aposentos fazem estremecer Maria e Patricia, surpresas com a degradação. Com apenas cinco dias disponíveis para a Birmânia, algo de que se arrependeram, Daniel e Ana voaram para o Inle Lake, para se juntarem mais tarde em Mandalay.
Falava eu das condições do comboio. Creio que, de facto, nunca experienciei comboios em tão mau estado como na Birmânia. E não imaginam como isso me entusiasma. O único luxo são os assentos almofadados… embora praticamente nenhum em condições. Basicamente, são quase uma ratoeira. O corpo precisa sempre de um jeitinho para se adaptar.
Cedo exploro toda a composição e logo percebo que somos os únicos estrangeiros na longa jornada. Poucos arriscam esta experiência, simplesmente uma das melhores que se pode ter nesta viagem: em 15 entusiastas e nada aborrecidas horas, o país trespassa-nos a mente. Como um néon que desperta o nosso “olhar”.
As viagens na viagem – o deslocar de um lugar para o outro – são a minha parte favorita nas deambulações pelo planeta. É quando mais aprendo e interajo. Assumo dificuldades em entender quem prefere a comodidade do avião, exceto quando o tempo não permite alternativa, como acontece com os meus amigos.
Os primeiros raios de sol já testemunham muita vida no caminho. Há grandes lençóis artificiais de água e modestas casas empoleiradas neles, assentes em frágeis estacas. Crianças brincam tal como os animais, sem rédea. Mulheres lavam e trabalham a terra. Os campos já labutam a bom ritmo, pois o calor não tarda a esmagar e será bem pior nessas fatídicas horas.
Em cada estação sobram vendedores. Comida para todos os gostos. Não me imaginaria a comer arroz, frango e vegetais às 09:30, mas é o que acontece. Antes de atacar novo almoço a hora mais própria.
O próprio comboio tem borbulhar ímpar. Os vendedores fazem fila, de um lado para o outro, recordando, como que em pregoes populares, tudo o que têm para saciar o mais exigente dos paladares (embora aqui, não seja, claramente, o caso).
É assim até ao fim da jornada. Um vai e vem de sorrisos, confiantes de que, na próxima passagem, apontarei o dedo para algum item. Um par de horas depois, abandonam a locomotiva e passam para outra via. Esperam pelo comboio em sentido contrário para completarem o dia de trabalho. Em nenhum momento senti pagar um cêntimo a mais do que os locais.
A marcha está longe de ser voraz. O caminho saboreia-se em camara lenta. Uma digestão a preceito para todos os sentidos. Se a paisagem cansa, não há problema: esticar as pernas e novamente de um lado ao outro da composição. Arrancar sorrisos e curiosidade. Trocar palavras de circunstância, desejoso de encontrar interlocutor que debite mais do que o básico em inglês.
Gosto particularmente dos muitos que saem para comprar comida na estação e vendedores ambulantes. Ouvem o som do reinício de marcha e caminham, serenamente, de volta ao comboio. Despreocupadamente, aceleram o passo, agarram-se a puxador lateral e saltam novamente para esta viagem. Como se fosse um exercício banalíssimo e do mais fácil.
As passagens de nível são uma delícia. A cancela trava motas, carros de bois, algumas carrinhas, transeuntes e animais. Todos ali, expectantes. Como se as suas vidas não tivessem pressa. Não encontro aqui a impaciência ocidental. Essa urgência irracional, de coisa nenhuma. Apenas lutando contra o tempo, como se fosse possível deixa-lo em stand-by.
Há um casal que se deita no chão. Não sei como, ocupa apenas uma estreita esteira, com uma criança no meio. Sei que os birmaneses não são propriamente corpulentos, ainda assim continuo sem entender como conseguem. Mesclados em união estreia. O seu sono é relaxado. Sem qualquer sinal de desconforto físico.
O sol está cansado e despede-se prematuramente. Deixa-nos em luz turva até ao fim da viagem, que termina em novo reboliço. Como únicos estrangeiros, somos bastante requisitados por taxistas.
Esqueci-me de escrever a morada do hotel, à qual apenas consigo aceder online. Sei que é perto da estação, mas não mais do que isso. Negoceio a corrida. Em três minutos estamos no hotel.
“Paguei tudo isto para uma viagem destas??”, questiono, tentando controlar o sorriso de quem se sente justamente derrotado. “Eu sou apenas taxista, não fui eu a negociar o preço consigo”, responde-me, com classe, quem nos deixa na morada para os próximos dias..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?