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Jornada épica no Irrawady

Ásia Birmânia

São 05:00 e começo a desesperar por um táxi. No hotel pedem-me seis dólares por um trajeto de três quilómetros, o que, aos preços locais, me parece bem despropositado. Entretanto, o tempo passa e não encontro um táxi livre. E os minutos estão em contagem regressiva. Um “vizinho” percebe o que pretendo e aborda-me. Sugere transportar-me. Não baixa dos cinco dólares. Não tenho muita margem para negociar. É mais avisado seguir já para o porto.
Há uma espécie de check-in para um barco obsoleto e comprido. Com cadeiras numeradas. Que os turistas que nos antecedem ocupam, receosos de passarem o dia em pé. Não vejo birmanenses entre os passageiros. As bagagens são identificadas. E há olhares de desconfiança. Não querem acreditar que esta embarcação será a nossa casa durante todo o dia. Sossegam pouco depois, quando o verdadeiro barco chega. Gostam da aventura, controlada.
O transporte local, mais apetecível, partira uma hora e tal antes e chegará, pelos cálculos, umas quatro depois. Não quero sujeitar Maria e Patrícia a esta exigente jornada. Já vai ser bem longa a viagem no fervilhante rio Irrawaddy.
O dia desperta e é envolvidos em místico manto de nevoeiro que partimos. Com caudal bem largo, a margem é avistada com alguma dificuldade. Em matizes pérola.
Não passa despercebida a grande azáfama. Há barcos a transportar birmaneses de um lado para o outro. A maioria das embarcações carrega mercadorias, de todo o tipo. O Irrawaddy é importante corredor económico do país.
O astro-rei começa a impor-se no horizonte e liberta fios de ouro que ondulam nas tranquilas águas.
Deixamos para trás a civilização e, em época de intenso calor, a paisagem é menos verde do que o desejado. O que mais impressiona? Precárias cabanas que albergam numerosas famílias. Há gado, sem qualquer semelhança com “gordura é formosura”. As temperaturas a rondar os 40.º fazem com que esta época seja mais complicada de digerir. Neste ermo não há espaço para fruta ou legumes.
As dificuldades aumentam exponencialmente. Entendo porque tanta gente tenta pescar, nas margens. De forma artesanal e bem rudimentar. Canas de pesca é luxo inexistente. Ganha o improviso.
Atravessamos o pequeno-almoço e o almoço. A comida podia ser melhor. Também podia ser bem pior. Está de acordo com a realidade e os padrões do país. Na refeição matinal, Patrícia desenrasca lugar na mesa de Arne. Um alemão com nome dinamarquês.
Quando descobriu as virtudes de viajar sozinho, Arne passou a arriscar mais. É a apenas a segunda viagem neste registo. Está a adorar. Pudera. E o seu semblante relaxa agora que tem companhia.
Além das cabanas, o horizonte brinda-nos com inúmeros pagodes. Onde há réstias de civilização, Buda não facilita. Nem os humanos seus devotos.
O barco tem paragens, que não o chegam a ser. Ocasionalmente, uma pequena embarcação aproxima-se. E atraca. Primeiro sobe a mala, depois o passageiro. Nos apenas por uma vez nos chegamos a terra, para sair gente. Um pequeno cais no meio de nada. Um birmanês fica aqui.
Instalo-me na proa e é aí que faço boa parte da viagem, quando não estou a explorar os diferentes recantos do barco de três andares. A vista é privilegiada. O que mais me seduz? Sentir o sol no rosto, como se de um abraço eterno se tratasse. Ouvir musica, olhos cerrados, sentir a aragem…
Os continuamos a cruzar-nos com barcos rio acima. De todos os tamanhos, mas sobressam os grandes, de carga. São inúmeros os casos em que vidas são passadas no rio. Os maiores barcos são a casa dos que fazem dele o seu sustento. Gosto particularmente dos estendais com roupa carcomida, mas quase sempre em tons vivos.
Já é suposto estarmos em Bagan. O sol ameaça ceder… e encanta-nos com novos dourados que palpitam no Irrawaddy. Finalmente, destino à vista. Apercebo-me que não desejo que esta viagem termine….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?