Problemática Autoridade

Ásia Birmânia

Chegar a terra firme nem sempre é fácil. Há natural cansaço (o sol mói e acumula-se o desgaste de estar permanentemente em movimento, em viagem) que habitualmente é incompatível com a agressividade dos que logo nos abordam na ‘praia’, tentando levar-nos para a nossa estadia.
Os motoristas de todo o tipo de transporte começaram por pedir 10 dólares a cada um. Nem nos detemos e prosseguimos caminho, a pé. O valor vai baixando…
A verba ainda não foi fechada quando nos desviam, sem os melhores modos, para um cubículo manhoso onde é suposto pagarmos 20 dólares de taxa por estarmos na zona histórica protegida de Bagan.
“O ano passado eram 15 dólares e este ano já são 20”, queixa-se um turista de proeminente barriga. Pelo aspeto, não me parece que este aumento lhe fará grande diferença.
Chegando a nossa vez, Maria apresenta 60 dólares. É o único dinheiro que temos. Estamos desprevenidos e não sabemos deste “imposto”, que não é cobrado a quem chega por terra. Não há forma de o fazer.
Para surpresa nossa, rejeitam a nota de 50 dólares. A antipática senhora – na verdade, a única que encontramos em todo o país – levanta a voz dando conta que a nota não serve. E que temos de pagar aquele valor. Digo-lhe que não sou surdo. E que tenha modos.
Registo que estamos no meio de nada. Os barcos atracam já no lusco-fusco e, tirando um pequeno pontão em madeira, nada mais há além da barraca para onde somos encaminhados.
“Não temos mais dinheiro. Ou aceita a nota – que está em impecável estado de conservação – ou vem comigo à cidade, a um multibanco. A escolha é sua. Ou pensa que vamos ficar aqui a dormir?”, atiro, em igual tom amigável.
A experiência tem-me dito que ‘encolher-me’ não costuma dar bom resultado. Consciente e responsável destemor costuma funcionar bem melhor.
Afinal, parece-me que não entende a mensagem. Insiste nos seus modos. Confesso que não estou com a maior das paciências. Digo-lhe que não quero saber dos seus argumentos, já que os meus são intransponíveis. E que vou prosseguir caminho.
Cá fora, em tom assertivo e ainda chateado digo que 1,5 dólares é o máximo que pago. O interlocutor aceita. Porque fica a ganhar, evidentemente.
A zelosa senhora da autoridade vem ter à carripana em que nos instalados e arma peixeirada. Arrasta consigo um agente da polícia e vocifera como que lhe dando ordem para que me detenha.
“Não somos diferentes dos outros e queremos pagar, mas já lhe disse que este é todo o dinheiro que temos. Como a informei, tem duas opções: ou aceita o dinheiro, ou vem connosco até à cidade e pago-lhe nesse momento. Decida”, digo-lhe, em inglês sereno e pose relaxada. Inamovível. Ainda bem que não entendo o seu birmanês. Não deve ter sido simpática.
Estranhamente, nada acontece e seguimos caminho. O motorista já lhe disse em que hotel ficamos. Presumo que estará lá alguém à nossa espera para cobrar a ‘dívida’. Afinal, não. Ninguém. A única pessoa que nos espera é Ruby. A polícia macaense que não fala português e “internacionalizou” o projeto Bornfreee..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?