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Mistica Old Bagan

Ásia Birmânia

Começamos a odisseia pelos templos – relaxem, não visitamos todos os mais de 2200 e tal que compõem este fantástico complexo – manhã relativamente cedo. O calor ainda não esmaga. E esta luz cristalina convida a explorar espaços exteriores. Atacamos o dia antes que a confusão se instale. Principiamos por três dos mais famosos templos, relativamente próximos entre si no coração da cidade velha.
Ambos são explorados no seu interior. Onde, com sempre, há comércio até ao limite do… tolerável. Aqui a barreira moral não é tão castradora. Não faltam templos nos quais se vendem recordações no seu interior. Com o calor que está – nestes dias, as máximas passam os 40.º -, o corpo até agradece pretextos para ficar mais tempo à sombra.
Bagan é um outro Angkor Wat, complexo bem mais conhecido internacionalmente, situado no Camboja. Neste caso, Património Mundial da UNESCO. Aqui, na Birmânia, esse título aguarda por melhores dias. E não é por falta de qualidade e interesse deste maravilhoso legado. O problema é que a junta militar que governou o país com mão de ferro quis fazer de Bagan um pólo turístico internacional. Esqueceu que a sua política persecutória, castradora e antidemocrática eram motivos de sobra para fazer ruir a sua intenção. Para piorar, a recuperação do complexo, que penou com vários terramotos, foi feita em cima do joelho e sem o rigor exigido e devido. Os senhores da UNESCO não gostaram do resultado. E assim o Mundo não conhece (ainda) esta joia da forma que ela merece.
Arne junta-se pela manhã, mas, naturalmente, está desejoso de voar sozinho. Como bom alemão, tem mapa completo e detalhado de todas as relíquias que deseja ver. E, imagino, tudo programado ao minuto. Dois templos é o máximo que aguenta connosco, até porque o tal “comércio” vai atrasar-nos irremediavelmente. Liberto-o do peso da cordialidade e logo arranca no seu veículo motorizado. Por cinco dólares/dia, uma lambreta elétrica com autonomia para 45 quilómetros. A forma mais prática de explorar Bagan, mas não a mais cativante.
Há um sorriso pré-adolescente que não me larga. Segue-me para todo o lugar. Quer vender-me postais. Acedo a entrar na dança da negociação de preço. Esmifro – verdadeiramente, é esse o termo – até ao limite do aceitável. Acabo por comprar 10. Dou-lhe o dinheiro que me pede inicialmente e ela logo retribui com o troco. Seguro-o na mão cinco segundos… e devolvo-o.
“Esta brincadeira é apenas para te dizer que falas muito bom inglês. Vais prometer-me que vais ser uma aluna exemplar. És inteligente e no futuro podes ser e fazer tudo o que quiseres. Basta quereres, crer e lutar por isso”, digo-lhe.
Em situação normal, provavelmente não me ouviria. Após a rábula da negociação… acredito que, ao dormir, possa dispensar três segundos ao meu pedido. E que isso, de certa forma, possa fazer alguma diferença. Aos 21 anos, fui professor. Um ano letivo apenas. Não foi experiência fácil. Nos anos subsequentes, tive vários retornos do investimento do meu pouco ortodoxo ‘latim’. Vale SEMPRE a pena preocuparmo-nos e investir nas pessoas. Nada custa tentar. Acredito que uma experiência vale mais do que qualquer bem material.
Rumo a outro templo cruzamo-nos com mais monges. E monjas, igualmente de cabelo rapado, trajando cor-de-rosa. Há mais jovens vendedoras de postais. E um rir-de-tanaka que me enfeitiça. Já não fico com mais postais, porém presenteamo-nos com uns minutos de conversa animada. Arrancar sorrisos é das recompensas mais nobres.
O sol aperta e prosseguiremos em carroça, puxada por bem tratado cavalo. É o sustento da família, naturalmente. Não temos guião para lhe dar. Dizemos ao nosso “guia”, que não fala qualquer língua comum às nossas, que é dono e senhor das nossas próximas horas. Dançaremos ao ritmo que ele desejar. Depois de saborear um sumo de cana, claro. Impossível resistir, quando me cruzo com um.
Mais do que os templos, sempre fantásticos, são as pessoas que continuam a cativar a nossa atenção. Os birmaneses não param de me seduzir com uma doçura no agir e generosidade no ser. Não sou o único a flutuar, em vez de caminhar. E as três companheiras nesta fase da viagem deslizam na paisagem com a mesma formusura. Estes são tempos de feliz simplicidade. De serenidade. Humildade. De perceber o quão privilegiados somos em estar aqui. E como não trocaríamos nenhum destes momentos por outros em qualquer outra parte do planeta.
“I know you!!”, vocifero, entusiasmado. Deixo o meu interlocutor confuso, meio perdido na surpresa. Antes que se recomponha, há um som feminino que me faz girar o pescoço: “RRRRUUUUUIIIIII!!”. As lágrimas brotam espontâneas…
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?