O IMPOSSÍVEL reencontro com Jean & Clete

Ásia Birmânia

Não sou o único a não controlar as lágrimas. Os meus amigos americanos sentem igual dificuldade em esconder a emoção. Que contagia mais alguém no grupo…
As probabilidades de isto acontecer? Reduzidas. Ínfimas. Nada provável. Só não é impossível, porque aconteceu. Estamos aqui. Juntos. O reencontro mais improvável do Mundo.
É um turbilhão de sentimentos. Os abraços sucedem-se. Não acreditamos que isto está a acontecer. Como é possível? Inspiramos e expiramos uma e outra vez. Deixar “isto” sair. Para podemos falar. Como seres normais.
Jean e Clete. 60 e 61 anos, respetivamente. Um adorável casal do Illinois que há anos optou por uma vida diferente. Reformaram-se cedo para viajar, sempre que podem. Simples, humildes, com coração do tamanho do Mundo. Aos meus olhos, sábios no estilo de vida. Uma inspiração.
São couchsurfers, mas não pedem “sofá”. Quando visitam uma cidade, pesquisam alguns perfis e depois contactam uma ou duas pessoas, desafiando-as para os conhecer. E assim ouvirem, da voz de um nativo, a história da cidade, do país. Da sua realidade social.
Foi há exatamente dois anos que nos conhecemos. Agora, que escrevo estas palavras, reparo que nos reencontramos… PRECISAMENTE NO DIA em que completa dois anos que nos conhecemos…
Jantamos no Guarani, na Avenida dos Aliados. Foram duas ou três horas nas quais nos encantamos. Falamos de nós. De sonhos. Do Mundo. De experiências. De como olhamos a vida. Rasgamos o arco-íris na diversidades de temas. A nossa primeira despedida, junto ao metro da Trindade, já tinha sido de emoção. Entretanto, as viagens mútuas espacejaram o nosso contacto e não sabíamos do “outro”.
O Mundo é grande. Estamos os três na Birmânia. O país é imenso, juntamo-nos em Bagan. O complexo tem mais de 2.200 templos, estávamos no mesmo. O dia tem 24 horas. Cruzamo-nos no minuto certo…
Quando nos recompomos, acertamos jantar nesse mesmo dia. E assim acontece. O resto da tarde já pouco importa. Ainda não estou em mim. É das melhores surpresas que posso ter. Jean e Clete deixaram, realmente, uma forte marca em mim. Recordarem o meu nome quando andam igualmente por todo o Mundo faz-me pensar que também terei feito alguma diferença na sua viagem a Portugal.
Chegar ao seu hotel não é fácil. Jantar às 20:30 já é fora de horas. E é complicado arranjar transporte. Após várias tentativas frustradas, caminhamos para uma estrada ‘principal’ e vamos fazendo gesto de boleia a todos os faróis que nos encandeiam os olhos. Há alguém que para e pede uma exorbitância. Digo que isso é demais. Que não faz qualquer sentido. Faço um preço justo para nós e ótimo para ele. Com sorriso assertivo, antes de ouvir a sua resposta entro na carrinha e ele não pestaneja. Ainda andou algo perdido, mas lá encontramos o hotel.
Afinal, a ‘nova’ Bagan é muito igual à ‘velha’. O delicioso reino da terra batida. Jantaremos a 200 metros, em esplanada ‘decente’, tipo um estrado entre árvores, com iluminação quente. Abro uma exceção e ataco, novamente, uma fresca Myanmar. Não sou apreciador de cerveja (que saudades de um bom vinho…), mas esta caiu-me no goto.
Os meus amigos falam com os meus amigos. Parece que estamos juntos há imenso tempo. Que nos conhecemos todos de longa data. Há risos e sorrisos. Há piadas e provocações. Não há diferença de gerações. Nem de culturas. Boas sensações exacerbadas.
Calo-me um par de minutos (não mais do que isso) e, assumo: estou no TOP 5 dos mais felizes seres humanos do Planeta..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?