Rumo ao Lago Inle

Ásia Birmânia

Percorremos o mercado de Kalaw uma última vez. Não é grande, vale essencialmente por três bancas com artefactos interessantes. A última vistoria de quem teme não encontrar exemplares iguais no Lago Inle. Há quem compre mais qualquer coisinha.
Rumo à estação de comboio, aprecio a arte de um barbeiro. Agora, olho para esta profissão de outra forma. Uma vez, na Etiópia, partilhei uns dias de viagem com fotógrafo húngaro que tem precisamente esse fetiche: fotografar barbearias. Tem um trabalho notável.
A estação já foi uma casa. Ou outra coisa qualquer. Esta é a única que conheço com um grande fogão de sala na bilheteira. Estarão uns 30.º. Na verdade, este é um espaço aberto a qualquer um. Até ao cão que vagabundeia pelo espaço, sem que lhe seja dada qualquer ordem para ir explorar outro lugar.
Um euro e meio é o que pagaremos por viagem meia dúzia de horas. O comboio está atrasado. Há um jovem com um grande bolo de aniversário no outro corredor de bancos de espera. Nunca vi tanto açúcar e chantili juntos. Deve ser por isso que prefiro meter conversa com o vendedor de chamuças. O odor cativa (antes de enjoar) e sempre posso aprender algo. Sento-me a seu lado. É indiano. É o primeiro da família a aventurar-se por terras birmanesas.
Por uns 20 cêntimos provo três chamuças. Não são grande coisa. Na verdade, pingam em óleo. A primeira já me custa, as restantes… não tenho alternativa a comê-las. Maria, Patrícia e Ruby desdenham este petisco gourmet, alimentado a brasas. Já fiz sacrifícios maiores e ainda cá ando.
Chega um comboio. Finalmente, já não é sempre tempo. Preparo-me para entrar, quando um suíço me pergunta se não vou para o Lago Inle. “Então esse vai na direção errada”. A impaciência tem destes lapsos…
Finalmente, estamos servidos. A carruagem de primeira classe (nunca vi algo igual…) tem lugares contados, já os bilhetes parece que não. Somos quatro e cada um fica a seu canto. Progressivamente, vamos fazendo trocas (há casais separados) e vamos ficando mais perto. No fim, parece que, afinal, estamos certinhos.
Por decoro, escuso-me a comentar o wc. Daria extenso texto à parte.
A paisagem continua deliciosamente rural. Tudo é precário, poeirento. Poético. Não há vidros nas janelas. Avançamos a uma velocidade tal que usar a palavra “ritmo” soa a hipérbole. É assim, neste frenesim imaginado, que vejo um pai a chegar a casa. Festeja com as crianças junto ao pequeno quintal. Pousa sacos. Arruma outros. Quando retomamos a marcha, aproxima-se novamente da via e sobe. Já está no comboio de novo. Qualidade de vida… daquela que falta no interior da locomotiva. O banco em frente ao meu, para dois passageiros, não está preso ao chão. E as cenas de montanha russa sucedem-se. Este vagão está repleto de alemães. Com janotas guias privadas. E divertem-se com a precariedade do transporte.
Esta viagem não deixa ninguém indiferente: há os que desesperam pelo fim e os outros, como eu, sempre com os olhos a lambuzar-se de horizonte. Nada como uma jornada de comboio…
O revisor não aprecia os meus vai-e-vem à segunda classe. Aqui não há turistas e os bancos de madeira não são assim tao desconfortáveis. Nos primeiros minutos… Retalia. Acaba por trancar as ligações da nossa carruagem.
Antes de o fazer, aprecio uma velhota carregada de sacos e flores. Ocupa, só para ela, quatro lugares. Vai a beber chá, à janela. Pensativa. Sorrio-lhe, mas está em outro Mundo. Absorta. Observo-a. Apaixono-me pelo seu jeito. Imagino o que foi a sua vida até este momento. Rebobino uma fantasia mental. Um belo ‘filme’ nesta viagem.
As horas passam, as refeições quentes a bordo nem por isso. Fiamo-nos no exemplo das viagens Yangon-Mandalay, com comidinha quente a toda a hora de um lado para o outro. Aqui, bem diferente. Vamo-nos amanhando com uns snacks manhosos que nos vendem à janela, em cada estação.
Nos locais mais improváveis, a passagem de nível tem guarda. É o que melhor funciona nos caminhos-de-ferro birmaneses.
Quando nos começamos a impacientar – e a fome tem boa parte de responsabilidade neste estado de espírito – eis que surge a placa “NyaungShwe”. Parece que estamos a chegar….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?