Gula é pecado?

Ásia Birmânia

Quando se vagueia sem destino, a felicidade encontra-se a cada esquina. Neste caso, ao fundo da rua. Há vapores e cores. O dia desmaia e, sem coisa mais útil que fazer, lá seguimos a curiosidade dos pés…
A maior saudade destas férias – confesso, quando longe, raramente penso no que deixei em Portugal, excetuando o contacto com a família – é mesmo o peixinho. Vivo no Porto, embora o coração (gastronómico) esteja em Matosinhos.
Quando vejo enorme peixe, replicado em ‘fila indiana’, na brasa… as papilas gustativas dão sinal de alarme. E não me permitem pensar em outra coisa. De uma forma ou outra, terei de desencaminhar as três amigas que me acompanham, bem com o casal suíço que vai estar connosco ao jantar. 
É assim que voltamos ao local do crime, guiados pelo doce som do odor. Unanimidade. Não há dúvidas: cada um vai atacar o seu espécime. Inteiro. Com legumes. E branquinho “sticky rice”, ou seja, um arroz de grão curto, oriundo da Ásia, que se torna particularmente pegajoso após a cozedura.
Não sou adepto de cerveja, mas a ‘Myanmar’ não quer saber disso. E vai mais uma… O mercado está cheio. E, estranhamente, neste momento parece exclusivo aos locais. Em boa hora atracamos neste sabor do mar.
O dia seguinte, dos mais estimulantes neste périplo birmanês, não é menos estimulante. Mesmo que o jantar tenha sido… pizza. Sim, por vezes, há que recuperar/mudar sabores. Mas, antes de me crucificarem, deixem-me explicar o seguinte: o local é gerido por simpatiquíssimo casal de origem indiana, as montras estão repletas de folhas A4 com recomendações dos clientes em todas as línguas e, mais uma vez, o ‘aspeto’ visual e odorífero prevaleceram.
A diversidade de sumos naturais de frutas exóticas é mais do que aprovada. Impactante. Uma sobremesa (bolo típico), que nos ofertam mesmo antes da refeição, encanta mais ao olhar do que no palato. Longe de ser mau, apenas diferente do que é esperado. E pouco doce.
Real Nyaung Shwe Bakery é o local mais do que aconselhado a todos os que visitam o Lago Inle. Enquanto jantamos, cinco nórdicos aparecem para comer. Sentimos a familiaridade entre eles e o casal. Vê-se que se têm multiplicado as suas refeições aqui. E estão a marcar um grupo grande para o almoço do dia seguinte.
Maria encanta a proprietária. “É igualzinha à única portuguesa que conheci antes de vocês apareceram”, justifica. Há entusiasmo genuíno e naíf na sua atitude. E Maria Isaura tem mais um motivo para andar feliz.
Fazemos questão de deixar referência. E não é somente pela extrema simpatia do casal, com quem ficamos a jogar conversa fora. A mão de Patrícia é mais afinada do que a minha. A letra fica a preceito. A comida tem sabor autêntico. E cativa o gosto à arte e amor que estes sexagenários devotam ao espaço. Sai um “like” bem grandinho para a Real Nyaung Shwe Bakery..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?