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Problemática odisseia aérea

Ásia China

Quatro – sim, quatro! – funcionários para o check-in, nem por isso tenho os cartões de embarque para o trajeto completo até ao Porto. Apenas se explica pelos meios rudimentares do aeroporto. Voarei de Mandalay para as chinesas Kunming e depois Guangzhou, seguidamente para Amesterdão e, finalmente, a Invicta que em bora hora de adotou.
O que significa isto? Que em Kunming, um par de horas depois, tenho uns 200 minutos para tentar fazer o que, incompreensivelmente, não é possível na birmanesa Mandalay.
Já em solo chinês, e antes de saciar o apetite, vamos já resolver a questão. Ou íamos… Incompreensivelmente, Maria não está no “sistema” no voo Guangzhou-Amesterdão. Mostramos a reserva e o “confirmado”. Irrelevante. Indicam-nos o guichet da Southern China, quem nos vai transportar. Também não consta. Mostramos os comprovativos. Sugerem que contactemos a nossa agência de viagens. Digo-lhes que é madrugada e fim de semana. Tolinhos, claro. Faço-lhes ver isso mesmo. O voo é deles. Estão seu país. Façam algo!
Após vários telefonemas, o máximo que fazem é embarcar-nos para Guangzhou. Onde teremos 2:10 horas para sair do avião, carregar as mochilas (qualquer objeto no porão, inviabiliza a nossa demanda), mudar de terminal, tratar do cartão de embarque, passar pelas intermináveis filas de detetor de metais e processos alfandegários e, se ainda for possível, embarcar.
O tempo parece muito escasso e, antes do embarque em Kunming, os funcionários da Southern (a quem também pedimos ajuda) não parecem muito otimistas. Quando no placar informativo o voo atrasa 45 minutos, sinto, interiormente, que tudo está perdido. Os deuses abandonaram-nos. Ainda assim, não quero alarmar Maria. É inspirar. Expirar. Tudo se há-de resolver. Se existem, os milagres devem servir para algo.
Falhar o voo vai implicar, entre outras coisas, um novo processo de visto. Temos um (esgotado) com apenas uma entrada na China, pois esta passagem é de menos de 24 horas. Se ficarmos em terra, essa premissa é alterada.
Há contactos telefónicos para que os bilhetes já estejam emitidos em Guangzhou. Infrutíferos. Ninguém se entende. Parece haver sistemático endossar de responsabilidades que não facilita a nossa missão. Agradecemos a tentativa de ajuda.
No avião, há um casal luxemburguês que tem potencial problema: já com cartões de embarque na mão, têm a dúvida se precisam recolher a bagagem para voltarem a fazer check-in. Não faz sentido. Ninguém os esclarece devidamente. A hospedeira tenta o seu melhor.
Uma vez no solo – e finalmente fora do lotado avião, onde, infelizmente, ocupamos das últimas filas – é correr rumo ao desconhecido. Seguindo instintivamente indicações à espera de estarmos no rumo correto. Transferências internacionais. Passando por zonas desertas. Um erro de percurso pode deitar tudo a perder.
Maria não aceita que carregue a sua mochila. Bem mais pesada do que a minha. E, sob os braços firmes. Mais um saco, bem grandinho. “Orgulho feminino”, dir-lhe-ei, posteriormente. Avanço, sem perder a minha amiga de vista. Qualquer desencontro pode ser ‘fatal’.
Encontro uma balcão da Southern. No meio de “nada”, no aeroporto. Diz-me que não pode ser ela a emitir o cartão de embarque, indica-me outro balcão. Só terei de correr uns 100 metros. E, felizmente, não há fila para qualquer das quatro funcionárias com um oportuno “I speak inglish” em pin na lapela.
Não perco muito tempo a explicar a situação. “Há um erro no vosso sistema e a minha amiga não consta no voo para Amesterdão. Precisamos dos dois cartões de embarque para seguirmos JÁ (enfatizo a palavra) para Amesterdão, pois não podemos MESMO perder o voo”.
Falam entre si e olham para o relógio. As expressões não são de otimismo. Trocam palavras em chinês. Até que alguém faz um telefonema. Não parecem com muita pressa. No fim da chamada, decidem deixar a velocidade cruzeiro e atacar, a sério, o problema. “Emitimos os bilhetes, mas devem dirigir-se imediata e rapidamente para o embarque”, imploram. Estamos em sintonia, evidentemente. E determinados a faze-lo.
Minutos antes, os cinquentenários luxemburgueses tinham voltado atrás para nos indicar que há um transporte que nos leva para mais próximo do embarque. Como que um carrinho de golfe bem mais corpulento. E é esse veículo que vai “voar” para nos ajudar.
A parte de deteção de metais retém-nos muito tempo, mas já estamos mais confiantes. Passada essa obrigação, os guichets para mostrar o passaporte. Uma longa e interminável fila que nos volta a colocar em situação extrema. Falo com uma polícia que se revela compreensiva e consigo saltar para uma fila prioritária, com muito menos gente. Ainda assim, antes de nós, uma família com crianças. Que está uma eternidade nas formalidades. Pai Europeu, mãe chinesa. Impaciência…
Ultrapassada a última barreira, velocidade de ponta rumo ao embarque. Apanharemos o derradeiro autocarro de ligação.  Em minutos, sentados. Aliviados. Em pulgas. A tentar descomprimir. Teremos 11 horas de voo para o fazer….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?