Olá, Ponta Delgada

Europa Portugal

Não sou dos que têm sorte, saboreando lugar de janela. Com efeito, a minha fila, e apenas do meu lado, é a única que não tem ligação ao Mundo exterior. E como custa ouvir comentários de inocente entusiasmo quando S. Miguel se exibe à nossa direita…
A ilha não partilha da nossa excitação pela chegada e sede de a explorar. De contrário, reservaria o mais soalheiro dos dias para nos receber. Contentamo-nos com parcos chuviscos. Não chegam a incomodar.
Há dois voos do Porto e outros tantos de Lisboa na lista das futuras chegadas. Os restantes seis são de ilhas açorianas. Gosto disto. Aguardem-me… 
Instalados no coração da cidade, logo procuramos a marginal. Nada como começar com as portas da cidade, verdadeiro ex-líbris de Ponta Delgada. O símbolo da primitiva defesa terrestre do maior burgo dos Açores. Os seus 232 anos merecem ser celebrados. Tal como a igreja Matriz, logo ali ao lado.
Surpreendentemente, esta obra de cinco séculos admite as suas “imperfeições”, nomeadamente as intervenções a que foi sendo sujeita ao longo dos anos e que desvirtuaram a sua génese. Convivem os estilos Gótico, Manuelino e Barroco, entrelaçados no basalto da ilha.
Uma charrua a transportar estrangeiros é um dos primeiros sinais de que o incremento do turismo é realidade crescente e não terá volta. Em vários restaurantes, garantem-nos que no último mês já têm faturado ao nível do verão. Os seus preços, que já não são do mais convidativo, terão tendência a perder simpatia.
Uma microbiblioteca no casco histórico, em frente à igreja Matriz, em cabine telefónica que os filmes ingleses popularizaram, faz-me pensar que a ilha não dorme. Tem vida e massa crítica.
Perdemo-nos por becos e cruzamo-nos com o Apito Dourado. Apenas um snack-bar. Hoje, o menu é dobrada com feijão e bifes de frango panados. Não chegamos a perceber se o nome é piada ou feroz crítica a um processo pouco abonatório para todos os agentes do futebol.
As portas do mar abrem a vista para o oceano. Um longo passeio com bares, restaurantes, lojas, marina… e uma bela vista sobre o casario que se espraia até ao Atlântico. Um dos lugares que mais convidam a perder o nosso tempo…
O forte de S. Brás está fechado, pelo que caminhamos para as primeiras obras de arte de Vhils. Até a nossa marcha ser travada. Por uma cadela…
 .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?