Apetites Proibidos

Europa Portugal

Antes de partir, prometera não engordar mais de dois quilos nesta passagem por S. Miguel. Para garantir que a aposta seria ganha, acrescentei um indelével “por dia”. A verdade é que uma e outra meta podem ser complicadas de cumprir. Confesso-me sensível a iguarias e os açores têm muitas com que entreter sensíveis palatos, como é o caso.
As nossas refeições por estes recantos são sempre mártires para qualquer dieta. Somos oito e as quatro mulheres do grupo não são mais cândidas do que nós à mesa. Uma guerra dos sexos gastronómica que promete fazer estragos na linha, uma ameaça ao bem-estar do verão que não parece preocupar qualquer das almas.
Foi no século XIX (1848) que o mercado da Graça ganhou personalidade, concentrando num só local a venda de produtos agrícolas e de gado. Substituiu o do “pelourinho” que juntava tudo isto a céu aberto, junto ao cais velho. Era também uma questão de saúde pública e a melhor forma de tirar os burros do centro da cidade, uma das grandes preocupações da época.
Confesso-me o maior dos fãs de mercados. Não há lugar mais genuíno. E facilmente se percebe se é para os locais ou se o turismo começa a adulterar a sua traça espiritual. O mercado da Graça não está no top dos que mais me encantaram em termos arquitetónicos, porém apresenta várias novidades interessantes, uma vez que os Açores têm clima e solos singulares.
A pimenta da terra é um dos produtos locais mais apreciados, seja para confecionar os pratos, seja para adornar o sabor do queijo fresco. Mas são os ananases que nos cativam. Pequenos. Aromáticos. Saborosos. É o melhor complemento a uma refeição que já tinha sido pecaminosamente farta.
O meu grande triunfo? Resistir ao Rei dos Queijos, uma loja que o ‘demo’ plantou mesmo colada ao mercado e onde se vende todo o tipo de queijos produzidos nestas idílicas ilhas. Sim, confesso: salivo enquanto o meu olhar perscruta todos os aromas que estimulam as minhas fantasias gastronómicas.
Nesta loja, os queijos são acompanhados de outros produtos regionais, como compotas, licores, vinhos, conservas, o chá Gorreana (o único chá produzido na Europa), o bolo lêvedo, a massa sovada…  
Bom, melhor apontar a bússola noutras direções de Ponta Delgada. Começa a ser difícil lidar com estas tentações… .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?