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Da idílica opulência ao degredo

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Luxuosos 88 quartos, dos quais uma suíte presidencial. Quatro grandes suítes ainda de maior luxo. Quatro quartos duplos com saleta, 27 duplos e 52 suítes juniores. Dois restaurantes (Grill Dona Amélia e Restaurante D. Carlos) um bar (Bar Americano/D. Urraca), três salas de conferência, uma discoteca (Night Club Chamarrita), um banco, um cabeleireiro, cofres-fortes, uma tabacaria, boutiques e outras lojas. 
É o cinco-estrelas Monte Palace, com a tela mais incrível para as azuis e verdes lagoas da idílica Sete Cidades. Não é por acaso que o lugar se chama “Vista do Rei”.
O empreendimento no mais sedutor dos lugares, com natureza ímpar, foi inaugurado sumptuosamente em 1984 pelo então presidente da República, Mário Soares, e com a poetisa açoriana Natália correia a inspirar-se na paisagem para recitar vários poemas. Uma solenidade com final… infeliz.  
Um investimento de milhões agora reduzidos a escombros. Baixa ocupação e altos custos de funcionamento ditaram o encerramento ano e meio depois. Os clientes queixavam-se do nevoeiro… que retirava ao lugar a sua grande-mais valia, já que nessas circunstancias nada havia que fazer nas redondezas.
O grupo madeirense que construiu o Monte Palace pagou a sua ambição desmedida com a falência. O igualmente madeirense Banif acabou por ficar com ele, fruto das dívidas de que era credor. Guarda e cães zelaram pelo lugar até 2011, até que, por falta de pagamento, até estes o abandonaram.
O vandalismo tomou conta do luxo de outrora em meio pestanejar. Móveis, candeeiros, tapetes, espelhos… e até elevadores. Tudo o alheiro levou…
Hoje serve para tudo – no nosso caso, para testemunhar o impressionante degredo e subir ao último piso para disfrutar de uma das mais belas vistas que encontro em perto de 100 países -, até para romarias ao seu interior para apreciar os restos da opulência do que foi o hotel. Este crime turístico já foi alvo das mais diversas reportagens nos mais distintos meios.
Apesar as incríveis vistas que proporciona, neste momento o Monte Belo é a maior nódoa na idílica paisagem açoriana. Agora que o turismo está em fase acelerada de evolução – as low cost chegaram ao arquipélago – há esperança para este projeto? Ou o melhor será mesmo implodir e devolver o espaço à natureza?
O interesse turístico da região, o ambiente, a saúde e higiene públicas agradecem uma decisão. E nós também. .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?