Deslumbrante Cerimónia de Abertura

Azerbaijão Médio Oriente

Milhares de executantes de dança, teatro e música. Fantástico fogo-de-artifício. Lady Gaga. Criativas histórias. Gente excitada, entusiasmada. Deslumbrada. Feliz. Mesmo com os assobios à Arménia. Do que se trata? Cerimónia de abertura dos I Jogos Europeus, pomposamente organizados pelo ‘democrata’ Azerbaijão.
Sei que nada se compara – ou comparará – a Pequim2008. O evento mais visto pela humanidade na história do planeta Terra. Não viverei algo igual, nem que viva mais um milénio. Mas também tenho a certeza que o regime de Baku quer brilhar e mostrar ao Mundo uma faceta que ajude a diluir a imagem negativa que, inquestionável e justamente, o caracteriza.
O entusiasmo e desportivismo habituais nos grandes eventos desportivos mundiais estão no auge. porém, no meio de intensa festa, cedem, por momentos, a um coro de assobios. Porquê? Sete elementos desfilam no grande palco, orgulhosos da sua bandeira. É a representação da Arménia. A guerra de Nagorno-Karabakh, no início dos anos 90, está longe de ser esquecida pelos azeris, que perderam o território. E os incidentes armados continuam, com episódios regulares na fronteira.
Os apupos são audíveis, mas efémeros. Embora tenham contrariado o espírito da poesia especialmente escrita para o evento e cantada por Alim Qasimov, com uma mensagem clara: “Temos espaço nos nossos corações para todos os nossos convidados. Cantaremos 1001 canções para todos os que vierem a esta chama”. Bom, para quase todos…
O ambiente de festa prevalece e os vizinhos da Geórgia são efusivamente saudados, mas não tanto quanto a Rússia e Ucrânia: quando a numerosa equipa da Turquia entra, é como se estivesse em casa, tal o ruído e entusiasmo, ao nível da seleção do Azerbaijão. Será por, há um século, ter perpetrado o histórico genocídio ao povo arménio?
Nem a cantora norte-americana Lady Gaga gera tanto entusiasmo ao piano, quando, em aparição fugaz, dedica aos atletas o tema Imagine, do falecido ex-Beatle John Lennon.
Antes disso, cerca de 1.000 dançarinas femininas ocupam todo o grande palco com as suas coloridas e grandes saias, criando os padrões e motivos dos tapetes do Azerbaijão, um dos maiores orgulhos do país no panorama internacional.
A longa jornada da chama dos Jogos é recordada em vídeo e a tocha chega ao estádio, sendo simbolicamente enterrada no chão, para “energizar toda a ação vindoura”.
A poesia de Nizami, herói nacional, merece especial destaque, não só na sua declamação, mas também na encenação que retrata os principais temas da sua obra, com 300 atores e 240 metros de cenário.
O poeta volta a ser lembrado com uma romã na mão, que subitamente se transforma em fruto gigante, de onde saem milhares de balões vermelhos.
Segue-se o desfile dos 50 países em competição, com João Costa, que recentemente conquistou o direito a disputar os seus quintos Jogos Olímpicos, a ser o porta-estandarte da animada comitiva, munida de pequenas bandeiras e cachecóis, e liderada pelo chefe de Missão, o competente José Garcia.
Mehriban Aliyeva, a primeira-dama do Azerbaijão e máxima responsável do comité organizador, lembra que o país teve apenas dois anos e meio para se preparar para este desafio, “ultrapassando vários obstáculos com dedicação e trabalho árduo”.
Patrick Hickey, presidente dos Comités Olímpicos Europeus, entende que os Jogos Europeus vão “tornar o movimento olímpico mais próximo”, considerando ainda que o desporto “provoca inevitáveis mudanças positivas” nos países que organizam grandes eventos.
No fim, milhares de figurantes subem ao palco para uma última dança e milhares de balões voltaram a cair do céu, pintado por amplo fogo-de-artifício.
Que comecem os Jogos!.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?