Azerbaijão: Bacu, a sedutora do Cáspio

Azerbaijão Médio Oriente

O vistoso e colorido skyline é imagem de marca de uma capital “vidrada” em potenciar o seu impacto internacional. Ou não recebesse cada vez mais eventos mediáticos à escala global, como os recentes I Jogos Europeus, a Fórmula 1 em 2016 ou o Europeu de futebol em 2020.A principal referência do país que é “Terra do Fogo” renasce diariamente no seu centro urbano, um dos que mais rapidamente se está a transformar em todo o planeta. O Cáspio abraça a zona antiga, dentro das vigorosas muralhas, com o encanto que a UNESCO reconhece.Entalada entre Rússia e Irão e, outrora, parte da Rota da Seda, a cidade libertou-se da aura soviética para se ver como europeia. Ainda assim, a cultura, atmosfera e gastronomia são todas orientais…Um alerta: se antes de optar pelo Azerbaijão se aventurou pela vizinha Arménia, é mais avisado trazer um novo passaporte. A guerra de Nagorno-Karabakh terminou há duas décadas, mas as feridas não foram suficientemente debeladas. Demasiado longe de cicatrizar. E as novas gerações foram bem instruídas para que esse sentimento de inimizade perdure, até porque as escaramuças na fronteira persistem. Ter no mesmo documento o carimbo da Arménia e um visto, de uma página inteira, de Artsakh (Nagorno-Karabakh) teve tanto de loucura como de imprudência, pois normalmente custa a entrada no país. Confiei, talvez em demasia, que a minha missão jornalística resolveria qualquer problema. Foi por meio triz. Rocambolesco e longo episódio para exibir como “medalha de guerra” em animados jantares com amigos. E advertência para os demais. Nestes dias, vários jornalistas e organizações internacionais são impedidos de entrar, pelos mais diversos motivos. Do céu, não enganaA aurora espreguiça-se sem vontade de assumir o seu efémero papel. Sobrevoamos zona rural e montanhosa. Não há casas e as solitárias estradas estão desertas. É assim boa parte desta nação, pouco mais pequena do que Portugal. Bacu alberga cerca de um quarto da população de uns 10 milhões. A paleta de cores vai mutando até que o mar Cáspio surge à esquerda. Salpicado de altivas infra-estruturas petrolíferas. Guinada para a direita e baixar altitude. Acompanhamos a praia erma e o solo vai-se aproximando. Os pequenos poços de petróleo contaminam a paisagem. Todas as habitações parecem ter um. O voo da Turkish Airlines pousa suave. Azerbaijão.Luxuoso e futurista. É assim o novo aeroporto internacional Heydar Aliyev. É o primeiro impacto com aquilo em que o abundante petróleo transformou a opulenta capital. A nossa mente muda logo o registo de eventuais preconceitos quanto à modernidade do distante e pouco conhecido destino que nos acolhe.Entramos na cidade por zona de construção emergente, com grandes avenidas e abundância de novos edifícios, muitos com estilo “histórico”. Esta parte foi adornada pelo estádio nacional que albergou os I Jogos Europeus em Junho passado, que obrigaram a astronómico investimento e uma visível modernização de infra-estruturas. Um evento que procurou ser tão sedutor e eficaz para o exterior como para os seus compatriotas. Os azeris tentaram mostrar ao mundo a capacidade, entusiasmo e compromisso de um país acolhedor e contemporâneo, cada vez mais empenhado em receber grandes eventos e investimentos. Ao mesmo tempo, o regime de Ilham Aliyev, de questionável democracia, atropela as mais básicas questões dos direitos humanos, situação regularmente em foco nos media dos cinco continentes. Das “cúmplices” instâncias internacionais, apenas o “consolo” de pensarem que o desporto “provoca inevitáveis mudanças positivas” nos países que organizam acontecimentos de tamanho colossal.Bom, Bacu tem três zonas principais. A outra é a tipicamente soviética e depois há ainda a “baixa”, onde reina a zona histórica, que abraça o mar Cáspio. A verdadeira alma deste destino. A que mais nos importa e na qual nos focaremos.
Boulevard. Fountain Square. Cidade-velha. Eis, por ordem aleatória, os principais pontos de Bacu e que podem ser ligados a pé. Sem aventuras de atravessar imprudentemente ruas e avenidas. Os azeris são perigo real na estrada e sucedem-se os atropelamentos. Não hesitar em aproveitar as passagens subterrâneas – várias delas, artísticas – para cruzar largas avenidas. Quanto ao resto do centro, o mais rápido e prático é usar o metro, uns 20 cêntimos por viagem. Não entende as indicações? Aventure-se a tentar comunicar em inglês.
A Boulevard é o maior orgulho da nova Bacu, um sonho pujante que nos últimos cinco anos se tornou irreconhecível para quem a visitou anteriormente.Namorando o mar Cáspio, este é lugar preferido dos locais para passear, para se entreterem e até para fazer compras. Não tem praia, mas sobra-lhe charme. Jardins cuidados, árvores exóticas, restaurantes requintados, esculturas, fontes, esplanadas cativantes, parque de diversões… tudo bem limpo e cuidado. A ideia do projecto é torná-la na mais emblemática avenida do mundo, quando todas as partes forem inauguradas. Do outro lado, cinco faixas de rodagem para cada sentido, ladeadas pelas mais luxuosas lojas das grandes marcas.
Esta é a zona eleita para concertos e fogo-de-artifício durante os feriados e outros importantes eventos. Aqui também podemos optar por viagem de barco, na qual podemos apreciar o vistoso skyline.
A Fountain Square (deve o nome às várias fontes do seu traço original, ainda na era soviética) está por perto, tal como a Torgovaya. Falamos da zona pedonal de Bacu, no coração da urbe, onde proliferam restaurantes, lojas, bares, cafés e gelatarias, hotéis, fontanários e carrosséis. É, por isso, das zonas mais movimentadas. “É agitada de dia e ainda mais cativante à noite, sem a azáfama do stress”, assegura-meGülendam Nesirli, finalista de Estudos Internacionais e verdadeiro símbolo da simpatia dos azeris.
Saboreio um gelado enquanto os azeris e os ainda escassos turistas vão apreciando o crescente glamour de uma gradual classe média ávida de se distinguir pela ocidentalização do seu trajar. É um dos lugares privilegiados para festivais públicos, espectáculos e celebrações. Cidade fortificadaEsta zona (cidade velha) é Património Mundial da UNESCO. As vigorosas e bem conservadas muralhas chamam cada vez mais turismo ao seu interior, que convive com muitos edifícios históricos e monumentos, incluindo o Palácio dos Shirvanshahs e a Torre da Donzela. As altivas paredes afagam um vasto legado de tempos idos que merecem visita. E que podem ser explorados em apenas um dia.
O Palácio dos Shirvanshahs (século XV) é típico da arquitectura azeri. Trata-se de um complexo que assinala a transferência da capital para Bacu e no qual se pode apreciar o paço Divanhane, a mesquita de Shah de um só minarete, o cemitério, o singular mausoléu do “santo” Seyid Yahya Bakuvi, um reservatório de água, restos de casas de banho e a imponente porta Murad.
Este palácio tem um lugar tal no país que ao longo dos anos se tem exibido em mais do que uma nota (dinheiro). Em 2000 enriqueceu a lista de excelência da UNESCO.
A Torre da Donzela é marca inquestionável de Baku e do país, mesmo que agora esteja separada do mar pela avenida principal, a tal Boulevard. “É uma das nossas marcas mais distintivas”, explica a minha nova amiga, que personifica a amabilidade de um povo afável e bem receptivo ao turismo.
Na verdade, ninguém sabe ao certo quando foi construída – presume-se que no século XII, mas outros defendem que a mesma poderá ter até 2500 anos – e também embeleza os manats (moeda local). Segundo a lenda, um rei apaixonou-se pela própria filha, desejando casar com a princesa. Até para manter a dinastia. Esta, verdadeiramente contrariada com os propósitos do pai, disse que realizaria o seu desejo após a construção de uma torre. Quando o projecto ficou concluído, a princesa, desgostosa, atirou-se ao mar, que na altura tocava a edificação. Há uma variante da história que acrescenta que, revoltado, o amante da princesa matou o rei. E que, afinal, as sereias salvaram a sua musa de se afogar, pelo que o casal se reencontrou e ficou junto. Como sempre, para a eternidade…
Diz-se que esta torre foi sempre intransponível durante as guerras. Que terá sido uma fortificação defensiva. Um observatório astronómico e até um templo zoroástrico. Certo é que agora alberga um museu e, no seu topo, tem vista admirável para a zona histórica, destacando-se os minaretes e os becos.
Deste ícone pode ver-se outro, a praça que ostenta a gigantesca bandeira nacional do Azerbaijão, supostamente a segunda maior do planeta, com 162 metros. O complexo inclui um museu com o seu nome.
É no interior das muralhas que se encontram os lugares mais aprazíveis para saborear o dolma e saj, os meus favoritos. Sim, comida. A experiência gastronómica deve deambular igualmente pelos paladares do plov, badimcan dolmasi, buglama, bozbash, bozartma, kebab, piti, gutab e piti. Mais do que explicar do que se trata, o melhor é mesmo provar, explorar a dengosa paleta de sensações que esta gastronomia nos provoca.Museus e arteJá se imaginou ver um livro (disse ver, não ler) apenas com recurso a lupa? Arte em dois milímetros. A mais pequena e exigente. Só podia ser japonesa. É dos meus favoritos este museu, privado, de livros em miniatura. Já ultrapassou os 7000 exemplares em quase todas as línguas, inclusivamente o português. As Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida datam de 1828 e foram impressas na Typographia Rollandiana, em Lisboa. Aqui encontramos talento de sobra dentro da própria arte. Situa-se na parte fortificada e não tem preço de ingresso. Pena que a funcionária mal arranhe o inglês. Sobra-lhe genuína vontade, mas…
O Museu de Arte Moderna foi iniciativa da primeira-dama e os seus projectos em parceria com o Louvre e Versalhes permitem-lhe o privilégio de aceder às melhores obras para exposições temporárias.
Já o museu nacional do Azerbaijão encerra literatura e cultura, em construção de 1850 que era um caravançarai na Rota da Seda. São 2500 metros quadrados que ostentam mais de 3000 peças entre manuscritos, ilustrações, livros raros, esculturas, retratos, miniaturas e memórias de poetas, entre outros.
A completar os vários museus de interesse, está o arrojado  que exibe a maior colecção de tapetes do país: o museu de tapeçaria do Azerbaijão deixou a mesquita Juma para se instalar à beira-mar, na Boulevard, em edifício audaz, bizarro e singular. Uma das várias obras que coloca Bacu no lote das capitais mais interessantes em termos de nova arquitectura. O interior diz-nos tudo sobre a nobre arte, mas é o seu design desafiador e inovador que ajudou a que a UNESCO reconhecesse o interesse deste projecto do austríaco Franz Janz.
Ainda assim, a modernidade desta capital tem como principal ícone as Flame Towers, certamente a construção mais marcante do país. Três gigantescas e inflamadas chamas a sair das profundezas da terra. São 190 metros de hotel, escritórios e apartamentos.
À noite, destacam-se por ser ecrãs gigantes, com luminosas exibições alicerçadas em mais de 10.000 LED que cobrem toda a estrutura. O movimento das chamas é visível até dos pontos mais remotos. Em alturas especiais, exibem-se projectos media distintos: foi assim que as eternas labaredas saudaram o Festival da Eurovisão em 2012 e os I Jogos Europeus, em Junho último. E, nestes jogos de luz em constante mutação, a bandeira de Portugal fica-lhe muito bem…O Centro Haydar Aliyev vale, só por si, a curiosidade de o explorar, fora e dentro. A obra da iraquiana Zaha Hadid é uma peça de arquitectura distinta – ainda mais, por estar imponentemente ‘plantada’ no meio de área de clara influência soviética -, premiada internacionalmente. Um edifício cultural que se apresenta com linhas fluidas e onduladas, procurando evitar ângulos agudos e privilegiando diferentes perspectivas para o apreciar. Contempla uma galeria, museu e centro de conferências. É determinante na vida intelectual do país. E imprescindível numa verdadeira exploração de Bacu.
O Festival da Eurovisão de 2012 despertou o mundo pela primeira vez para a nova realidade do Azerbaijão. A oportunidade há muito esperada pelo regime de Ilham Aliyev, que sucedeu ao seu pai e fundador da nação, em eleições que a comunidade internacional não legitimou. O Crystal Hall foi a sala de espectáculos culturais e desportivos criada para dar uma imagem distinta de Bacu, chamar a atenção mundial para a sua nova face, o seu potencial. Uma obra repetidamente premiada, junto à praça da bandeira nacional.
Inspirado na arte e glamour das incomparáveis estações de metro de Moscovo, o subsolo de Bacu não ficou imune à tendência artística soviética. As estações de Nizami (poeta persa do século XII), 28 de maio (dia da independência, em 1918 – foi a primeira república democrática no mundo islâmico) e Elmler Akademiyasi (Academia de Ciências) justificam visita atenta. Fora das superpovoadas horas de ponta. O metro é limpo e seguro e em cada estação há uma decoração diferente, plena de simbologia.
Considerado o maior poeta épico de toda a literatura persa, Nizami Ganjavi, o tal da estação de metro, é nome respeitado e atribuído a importantes marcos de referência urbanos. Aqui também é uma das artérias mais concorridas. Um dos pontos pedonais mais cativantes para passear, principalmente à noite.
A Bacu sobram motivos de interesse. A cidade do vento – acreditem, este nome não é fruto do acaso – destaca-se também pelas inúmeras fontes. É o seu diversificado formato e a iluminação nocturna que as torna símbolos da moderna capital.
Já fora da baixa, o monumento Shahidlar é dedicado aos heróis nacionais que lutaram pela independência do Azerbaijão. Dentro da imponente estrutura de pedra, à qual acedemos por um funicular gratuito, há uma chama eterna. E uma vista distinta sobre o tecido urbano.Bacu é um projecto que não cabe no nosso imaginário. Uma ilha ocidental num país seguro e afogado em petróleo e que decidiu internacionalizar a capital com o produto do ouro negro. Arrumaram a cidade. Construíram edifícios icónicos. Captaram o interesse, investimento e atenção à escala global. E o dinheiro e crescente turismo serão o pretexto do regime para se tentar credibilizar internacionalmente. Políticas à parte, Bacu é um sonho emergente que justifica a nossa atenta curiosidade. O Lonely Planet descobriu-a agora. O mundo vem a seguir.Escapadinhas de BacuOs lugares interessantes não se esgotam na cidade. Nos seus arredores, a Montanha de Fogo é um espectáculo de chamas alimentado eternamente pelo gás natural. Apreciámo-lo enquanto bebemos um chá?
O Templo do Fogo (Ateshgah) está em Surakhani, a 30 quilómetros do centro e temos o mesmo espectáculo… mais controlado. Lugar de culto para os zoroastristas.
A sul, a uns 70 quilómetros, há mais reconhecimento da UNESCO no parque nacional Gobustan. Uma área semideserta com formações rochosas e que é famosa pelos seus simbólicos desenhos e gravuras rupestres, datados de 10.000 anos antes de Cristo.
A apenas dez quilómetros de Gobustan, sobressaem os vulcões de lama. O Azerbaijão tem cerca de um terço dos activos e dormentes do planeta, 23 dos quais protegidos pelo Governo.
Pirallahi é uma ilha com algo muito particular: foi aqui que começou a ser feita a primeira exploração de petróleo do país. Não é o mais belo dos lugares, mas, havendo tempo, merece uma visita. E uma caminhada que inclua subida até ao farol.
Da Boulevard também sai um barco para passeio, nomeadamente para apreciar o skyline, em forma de anfiteatro.”Extracto do trabalho que BORNFREEE realizou para a REVISTA FUGAS do JORNAL PÚBLICO”.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?