Sorrisos & Rebuçados no Sagrado Irão

Irão Médio Oriente

Sorrisos e rebuçados. É assim que somos brindados ao sair de santuário sagrado perto de Kashan, onde jazem centenas de vítimas da sangrenta guerra com o Iraque. Que deixou marcas por todo o Irão.
Famílias inteiras sentadas junto à foto do ente querido. Espalhadas por todo o amplo espaço. Há tristeza, mas também esperança. E confiança em futuro diferente. Até para quem já cá não está.
O grupo Bornfreee.com é brindado com inesperado contacto: não falam inglês, mas estendem a mão. Rebuçados. Estes xiitas iranianos acreditam que esta conexão com ‘estranhos’ alegra os dias de quem já partiu, potenciando-lhes laços mais fortes com este Mundo. E não é apenas uma família a surpreender-nos com esta atitude.
Hilal ibn Ali é o nome deste “holly shrine”, um impressionante mausoléu a uns 15 quilómetros de Kashan, em Aran va Bidgol.
A imponente infraestrutura é densa em beleza, em tons azul-bebé mesclados com sábios amarelos. Dentro, crianças brincam ruidosas e despreocupadas, enquanto muitos adultos rezam em ambiente no qual se destaca meticulosa obra de milhares de pequenos espelhos, em forma que não permitem distrações narcisistas: “Aqui, o importante é encontrar Deus. Ninguém é tão relevante que se justifique procurar o seu próprio rosto ao espelho. Aqui é o lugar ‘Dele’”, explicam-nos.
Religião é tema que me abstenho de comentar – não sou crente… e sobra-me espírito crítico… – mas isso não me impede de sentir que este lugar tem “algo” de muito, muito especial. Neste islão xiita que vai desfilando no meu atual quotidiano, tudo parece bem sereno. Sem lugar a inusitados ódios ou impróprios desejos de vingança. Nem vislumbro os supostos fanatismos que tanto assustam o ocidente. Aqui, apenas há tristeza e saudosismo, mas vontade de seguir em frente.
.

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?