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Tea House – Um sorriso ou um namoro furtivo?

Irão Médio Oriente

Saímos da Praça Iman, a que a UNESCO celebra em Isfahan, andamos uns20 metros, virámos à direita num beco pouco recomendável e chegámos. Fácil. E, à primeira vista, um pouco assustador para os incautos. Na verdade, é um espaço de tralha abandonada, com gente mal-amanhada em ‘poses’ pouco ortodoxas. Um cenário apocalíptico. Que me faz pensar que estou no lugar errado.
Aqui, mulher não entra. Há espaços no Irão que são reservados apenas aos homens. Única e exclusivamente, de ‘machos’. Não há volta a dar. Bom, mas neste caso, até há: a mulher apenas pode aceder à ‘tea house’ caso se apresente noutra entrada, com a indicação de ‘famílias’.
O lado masculino pouco interessa. Muito sisudo. Bebem chá, mas, acima de tudo, embrenham-se a fumar ‘chicha’. É um ambiente bem menos… atrativo, pois falta-lhe o essencial: beleza e charmes femininos. Não há um sorriso para apreciar, um olhar para responder, uma gentileza para sobressair. Um ritual de homens para homens. Sem sal.
Do lado das famílias – neste local, uma ‘porta’, que não existe, é a única coisa a separar os dois lados – tudo mais sereno, saudável e acolhedor. Há famílias inteiras em harmonioso convívio. Há furtivos casais de namorados. Companheiros de universidade. Tudo mais ‘normal’. Apreciamos e somos apreciados. E não falta quem meta conversa. Quem queira saber de nós.
Surpresa? Aqui, há mulheres que fumam ‘chicha’. Mesmo ao lado do quartel-general masculino, há quem se emancipe e assuma os seus desejos. Bem senhoras do seu nariz. Independentemente de alguns olhares de reprovação, ocasionais na plateia iraniana.
Bebemos chá. Que vem acompanhado de uns pequenos ‘torrões’ doces. Mas o chá é que nos traz cá. E este ambiente singular. São os locais de excelência para socializar: amigos em relaxante pausa, namorados em subtil intimidade, famílias em amena cavaqueira. Passar o tempo com quem importa. O tipo de ambiente depende do dia e da hora.
O chá é a bebida nacional dos iranianos. Bebe-se a qualquer hora, por todas as pessoas e em qualquer tipo de situação/ocasião. Em casa, no trabalho, nos negócios… e nos locais exclusivos para isso, as ‘tea houses’.
Esta, é de decoração peculiar: tem todo o tipo de tralha – até no teto – e não há um milímetro de parede despido. Um lugar diferente, absolutamente envolvente. Vai um chá? .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?