Vank, Arménia no coração do Irão

Irão Médio Oriente

Há 500 anos (no ano 1540, mais precisamente), cristãos arménios vieram para Isfahan trabalhar como ourives e no comércio. Mesmo estando em país islâmico, conquistaram o direito a exercer a sua fé cristã. Criaram uma comunidade agora conhecida por bairro arménio (Jolfa), onde podemos encontrar várias referências à sua cultura e religião, destacando-se uma impressionante catedral: Vank.
Acima de tudo, a coexistência pacífica de outro credo religioso no país mostra muito sobre os persas, que não deixam escapar uma oportunidade para sublinhar que não são árabes, mesmo tendo sido islamizados.
A nossa ilusão esbarra à porta. “Está a decorrer uma cerimónia religiosa. Só no fim podem entrar”, advertem-nos. Não é simpático. Até porque são estes momentos que a nossa retina deseja registar. Dois seguranças zelam para que ninguém não-arménio se junte ao ritual ortodoxo. E mandam-nos voltar em uma hora.
Não dá jeito aos planos, mas assim o fazemos. Deambulamos pela zona velha e acabamos por encontrar mais referências religiosas arménias e, numa delas, a simpatia das pessoas (ninguém fala inglês) dá direito a chá e bolinhos. E muitos sorrisos.
Pouco depois, passam-me o telemóvel para a mão. Há alguém do outro lado a falar inglês. Acabará por vir especialmente a esta pequena igreja. Conduz cerca de uma hora para abri-la só para nós. Para nos maravilharmos com a bondade desta gente e os frescos impressionantes em todo o seu interior.
Entrar na Vank custará 4,5 euros. Soa-me a religião prostituída (há destes exemplos em todos os credos)…
O interior, coberto de pinturas com cenas bíblicas. Repleto de pinturas e talha dourada. “Estes frescos do Juízo Final são um pouco assustadores, mas fascinantes”, comentam. O Mundo ortodoxo soa-me muito pesado, mas há obras que calam as nossas renitências…
Ao lado, um museu com muitos azulejos e peças de singular riqueza e beleza. A sua lojinha vende artesanato. No museu não os mais distraídos da história mundial fica a conhecer o massacre dos turcos em 1915, o genocídio perpetrado contra os arménios… que os agressores continuam sem reconhecer.
Em Jolfa encontramos ainda algumas antigas vivendas, construídas de ‘costas’ para a rua, à qual estão ligadas apenas pela porta: janelas e varandas viradas para o pátio interior. Assim se zelava pela segurança, em ambiente bem mais íntimo. Lojinhas e restaurantes cativantes… Jolfa bem merece uma tarde. .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?