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Zoroastrismo na remota Chak Chak

Irão Médio Oriente

Diz um guia de viagem que os últimos quilómetros da peregrinação a Chak Chak são feitos a pé, mal contemplem o fogo eterno. Que os crentes no zoroastrismo optam sempre por caminhar no derradeiro ataque ao santuário, incrustado em imponente e desértica montanha. Na verdade, o que se esqueceram de dizer é que não há alternativa, pois seria precisa uma estrada até lá acima. Assim sendo, fica difícil avançar de outra forma.
Boas (será??) notícias: a montanha foi ‘trabalhada’ e, em breve, uma estrada vai permitir aos veículos chegar aos pés do complexo de Chak Chak. Na verdade, o progresso vai ser mais útil aos curiosos, como nós, do que aos verdadeiros zoroastreus.
Nós não beneficiamos de qualquer benesse e, sob sol que esmaga, subimos por ingreme trilho na montanha. “Vale a pena a subida?”, questiono, a grupo de cinco, os únicos seres vivos que encontramos nesta zona erma, além do zelador do templo. “Lá em cima já verão”, responde-me alguém com tom pouco animado, à imagem do seu desgastado semblante. O suor escorre sem cerimónia e água é dos bens que mais apreciamos quando, muito a custo, cumprimos a missão.
Estamos no mais sagrado dos santuários de montanha do zoroastrismo. Anualmente, de 14 a 18 de junho muitos milhares de zoroastreus do Irão e India – e de outras nações – vêm cumprir com as suas ‘obrigações’ no templo de fogo de Pir-e Sabz.
Na crença de Zoroastro, Chak Chak é onde Nikbanou, segunda filha do último governante persa pré-islâmico, Yazdegerd III do Império Sassânida, foi encurralada pelo exército invasor árabe em 640 DC. Temendo a captura, Nikbanou orou a Ahura Mazda para protegê-la dos seus inimigos. Em resposta às preces de Nikbanou, a montanha milagrosamente abriu-se e abrigou-a dos invasores.
O atual templo de Chak Chak é uma gruta feita pelo homem e protegida por duas grandes portas de bronze. O santuário tem o chão em mármore e as suas paredes estão negras pelo fogo que aqui arde eternamente. Nos penhascos abaixo do tímido templo, há vários pavilhões construídos para albergar os peregrinos. Que não encontramos.
Em Chak Chak há uma nascente que escorrer do interior da rocha e que vai pingando sem parar. A lenda diz que estas gotas são as lágrimas que a montanha verte em memória de Nikbanou. Ao lado da nascente, uma árvore milenar que se diz ser a bengala de Nikbanou.
Saboreamos o momento e tentamos imaginar como teria sido a vida destes fiéis há imensos séculos. O poder e influência dos pensamentos religiosos sobre a sociedade. Neste caso, a pureza era levada a um ponto em que os cadáveres eram deixados em terminado local, expostos à natureza, para serem comidos pelos animais. Assim, não contaminavam a terra.
Agora, que nos vamos embora, percebo que muito poucos sabem o que é o zoroastrismo. Sobre esta religião fundada na antiga Pérsia (Irão) pelo profeta Zaratustra (presume-se que viveu no século VII AC) com a particularidade de ser a primeira de manifestação monoteísta. O Avesta (a sua ‘biblia’) contem os fundamentos desta religião, que tem duas divindades, o bem (Aúra-Masda) que sai vencedor do duelo com o mal (Arimã).
A crença no paraíso, ressurreição, juízo final e vinda do messias influenciaram as diversas religiões futuras, como o cristianismo, islamismo e judaísmo.
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Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?