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Dublin… até aqui??

América do Sul Argentina

Ushuaia não é conhecida pela ‘noite’. Os boémios apostam em latitudes mais confortáveis.  Mas há um reduto que faz lembrar certo gaulês em domínio romano: Dublin. O bar que vários couchsurfers locais me haviam recomendado.
É o lugar que nos encontra. Procuramo-lo, mas a musica e animação antecipam-se e apanham-nos na noite fresca. Tudo é imóvel e sereno na cidade.  Menos este antro com inegável potencial para a perdição.  
A música apresenta-se em animados decibéis,  as pessoas amontoam-se e não cabe aqui um rosto sisudo. Ou neutro. Movemo-nos com dificuldade,  encontramos um espaço para assentar base. Até que músicos mexicanos nos levam, após gloriosas lutas de animados encontrões, ao lado oposto do bar. Parece que há um aniversariante.  Ninguém sabe quem é.  Irrelevante. Sobra gente efusiva. Excitada.  Entusiasmada e feliz.
“Quero ir à Antártida”, diz-me suave voz desconhecida. Sigo as suas palavras e encontro boca de mel.  E olhar de rasgada serenidade. Claro que a beleza estética da descontraída personagem ajuda.
É romena. Logo haveria de me cruzar com nativa do meu favorito país europeu. Viajava há dois anos quando chegou a Ushuaia. Está cá há seis meses. Vive com o salário de um só dia de trabalho semanal em restaurante de luxo extremo.
“Instalei-me lá em cima. Nas montanhas.  Não desço amiúde.  Não preciso. Tenho toda a felicidade do Mundo diante de mim. Agora acho que chegou a altura de ir à Antártida. Queres vir comigo?”, desafia-me.
“Terás de esperar algo mais, já que tenho esta minha viagem programada”, retorqui. Desarmado pelo inesperado.  
A conversa tem muito de fantástico e surreal.  Tudo encaixa. Flui com a naturalidade do degelo dos glaciares destas paragens. Parece que galgamos Mundo precisamente para nos encontrarmos. Esta noite. Aqui. No improvável da vida. Ushuaia também tem esse efeito. Revela a nossa verdadeira natureza. Dá sentido ao inexplicável..

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?