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‘Velhotes’ & surdo mudos

América do Sul Argentina

“Rui, por favor vem cá”, surpreende-me voz estranha. Desconhecidos chamam-me para a sua mesa. Com o mais amigável e caloroso dos sorrisos.
“Vimos-te a falar com os três surdo mudos.  E a forma como interages com os teus amigos. Tens algo de especial. Apaixonou-nos a forma como lidas com pessoas”, diz um sessentão, acompanhado da irmã que resideem Nova Iorque e amiga que também viveem Buenos Aires. Surpreendem-me com esta apresentação.  E logo aí me despem. Em breve, ficaremos todos nas mesmas circunstâncias…
Em segundos outro copo está na mesa. Continuo no tinto. Por cada gole, muitos alicerces em imprevistas pontes com estranhos. Culturas e gerações diferentes. Contacto tão acidental quanto improvável. Toda a nossa conversa, inesperadamente íntima, me mantém turvo. Não no agir ou pensamento, mas nas emoções.  Nas que o olhar revelam.  Ao ponto de ter dificuldade em falar…
O grupo Bornfreee.com que me acompanha apercebe-se e respeita. Avisa-me apenas que estará do outro lado da rua. Loja de souvenires.  Eu continuo rendido. O Mundo parou. Nada mais existe. Não poderia estar em outro lugar, em melhor companhia. Como sentia saudades desta Argentina. De gente distinta, tão singular…
Na base deste encontro, um pequeno acidente que minutos antes tombara a minha cadeira. Acertara em mesa com dois homens e uma mulher, todos na casa dos 50. Logo percebo que são surdo mudos. Mas entendemo-nos mais do que o suficiente para animada conversa. Diálogo fluido e entusiasta. Inteligível. Um deles confessa que sente vontade de voltar a Portugal, “um país muito bonito com gente ainda mais bela”.
As (minhas) viagens valem sobretudo pelas pessoas com quem me vou cruzando. Alimento-as com desconhecidos que, invariavelmente, me dão muito mais do que imaginam. O estômago está feliz pelo saboroso cordeiro assado, mas é o peito que está cheio. Deslizo pelas artérias do Fim do Mundo com a Alma plena. E ainda nem sequer mergulhei nas incríveis paisagens da Terra do Fogo e da Patagónia….

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?