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Explorando o canal Beagle

América do Sul Argentina

O Fim do Mundo também está simbolizado no canal Beagle, fronteira internacional entre Argentina e Chile, junto aos seus povoados mais austrais: Ushuaia e Puerto Williams, ainda mais ao sul, mas sem a população suficiente para ser a ‘cidade’ mais austral do planeta. Será o povoado… São uns 240 quilómetros de comprimento por uns cinco de largura que pretendemos explorar… em parte.
Deixar Ushuaia para trás tem o condão de vermos a cidade ganhar dimensão e espraiar-se desde as montanhas nevadas até às águas tranquilas nas quais desliza confiante o nosso barco.
Navegando entre dois países, em meia hora chegamos à denominada ilha dos pássaros, assim batizada pelos inúmeros corvos-marinhos – tanto os Magalhães como os Imperiais – que a povoam. O barco abranda e ‘dança’ em frente ao que parece apenas um grande rochedo. Para que todos tenham acesso ao ângulo mais próximo da vida selvagem local.
Voltamos a romper as águas do Beagle rumo à ilha (rochedo) dos leões-marinhos. Pouco espaço para tanto pachorrento e relaxado animal. Indiferentes à nossa presença e ao bailado promovido pelo capitão para satisfazer todos os curiosos e respetivas máquinas fotográficas. Se o vento estiver contra nós, percebemos que o aroma que nos chega não é a rosas. Os machos são maiores e mais escuros. E podem ter mais do que uma fêmea, daí as habituais disputas territoriais. Que não chegamos a presenciar.
Enquanto navegamos entre natureza fértil, sem vestígios humanos, aqui e ali pinguins e lobos-marinhos vão mostrando habilidades, como se habituados à presença do animal que tem feito o favor de ir destruindo o planeta, embora por estas paragens o respeito pelo meio ambiente aparente ser elevado.
O farol Les Eclaireurs é um marco no Beagle. E não apenas para os postais da região. Não é o farol do Fim do Mundo, pois esse fica na isla de los Estados. Na ponta da Terra do Fogo, sensivelmente na mesma latitude.
Há vários faróis no canal, sendo que este – vermelho/branco/vermelho – indica o perigo de encontrar zonas de pouca profundidade a oeste. Quando é branco/vermelho/branco, o alerta surge para leste.  Norte e sul também têm sinalética específica.
Na nossa opção de exploração, prescindimos de caminhada na ilha Bridges – permite conhecer como era a vida dos índios Yámanas, que habitavam a região, até os colonos chegarem… – para ir apreciar os pinguins, em terra firme.
Não podemos sair do barco – saúdo o respeito pelo seu habitat natural – mas chegamos suficientemente perto para, a olho nu ou no zoom, apreciar a graciosidade de uma das mais queridas criaturas do planeta.
Apenas um pinguim imperial entre as centenas de ‘Magalhães’, mas, majestoso, está a virar-nos as costas e, desengonçado, desaparece na colina. Outros olham a ondulação a ver quando se aventuram na água. Os restantes, a ‘curtir’ a praia… indiferentes ao nosso entusiasmo.
As quase cinco horas de cruzeiro valem bem a pena e, para que não tenhamos duvidas, somos brindados, pouco antes de reencontrar Ushuaia, com duplo arco-íris. Impressionante. Mítico. Como que um arco a indicar-nos a porta do paraíso.
O fim do dia a aproxima-se, as luzes começam a tomar conta da cidade e espera-nos uma noite muito, muito especial… .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?