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Idílica Estância Cristina

América do Sul Argentina

Depois de horas a navegar em águas azul-turquesa ladeadas por imponentes montanhas de picos nevados, atracamos no sonho de Joseph Percival Masters, inglês suficientemente louco para se enamorar de um lugar que tem tanto de belo quanto de isolado. A aventura começou em 1914…
Para ser rentável, o negócio deve estar mais do que bem organizado. E o grupo total, que desembarca em dois catamarans, ultrapassará a centena. Logo dividido em dois grupos mediante a língua desejada para aprender sobre o lugar, castelhano ou inglês.
A ânsia de caminhar é imensa, mas a curiosidade sobre a história da Estância Cristina não é menor. A casa rústica – nem sei como resiste aos meses de duro inverno, em que a estância está completamente fechada – alberga um pequeno museu muito interessante com todos os detalhes. E múltiplos objetos que nos fazem recuar um século no tempo.
Masters emigrou para a Patagónia em 1900 e quando 10 anos mais tarde, já com dois filhos, ouve falar em terras de pastoreio, sem dono, junto ao Lago Argentino e à espera de aventureiros… não hesitou. Juntou dinheiro, comprou cavalos e gado e iniciou a longa travessia para o oeste. A viagem duraria vários anos com diversas tentativas de se fixar. Sem sorte. Várias peripécias depois, recupera e reconstrói um barco a vapor e instala-se no braço norte do Lago Argentino, o ‘braço Cristina’.
Assenhora-se de 22.000 hectares rodeados de esplêndida beleza natural, com lagoas e picos eternamente cobertos de neve. Aqui junta 12.000 ovelhas, 30 cabeças de gado e uns 50 cavalos. A ilusão de uma vida cresce, mas acaba perdida a sucessão familiar: agora o projeto é privado, gerido em parceria com os Parques Nacionais argentinos.
A imensidão da paisagem é esmagadora. Convida a caminhar. Vamos? À medida que nos afastamos da casa, as imponentes montanhas a norte ganham forma. A vegetação é de impressionante variedade. E há condores a seguir os nossos passos…
Em minutos encontramos uma capela. Logo ao lado de um curso de água. Há uma ponte sobre o pequeno rio Caterina que faria as delícias de Indiana Jones. Isto promete… até porque o grupo se vai adelgaçando. Aumenta a nossa intimidade com a natureza. Como convém.  
Vamos subindo e tirando roupa – até um limite decente – que o sol abraça se forma cada vez mais efusiva. Partilha do nosso enamoramento pela região. São 360.º de puro êxtase. Os amantes do outdoor não encontram melhores imagens no Mundo. E muito poucas se lhe assemelham. Diz-me a experiência de quase 100 países no ‘currículo’.   
Teremos cascatas. E tempo para as apreciar. Cada um recolhido à sua privacidade antes das ‘obrigatórias’ fotos que imortalizam o momento. Há uma coreana que abusa da vontade se se mesclar na paisagem e cai ao pequeno, mas já rebelde regato. Refresca os ânimos, sem danos de maior. Não lhe tolheria o sorriso por muito tempo.
O regresso a ‘casa’ traz a paisagem inversa, talvez até mais bela. Vegetação colorida, longo vale antes do lago Argentino e as ‘tais’ montanhas no fundo do postal. Não apetece voltar. O guia atrasa-se e diz-nos que estamos bastante atrasados em relação ao grupo. Tem de nos apressar…
Além da caminhada, podemos fazer 4×4, montar a cavalo ou pescar. Dá para ir até muito perto do glaciar Upsala, por lado diferente.
Quando pagamos os mais de 100 euros pela experiência deste dia, já não tínhamos outras opções. A nossa, a mais barata (classic), era a única que restavam escassas vagas. Venham cá perceber o porquê… .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul e na Rússia ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?