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De los Tres. Y Sucia: Deslumbrantes Lagoas y Glaciares, Lda.

América do Sul Argentina

A caminhada mais procurada, também das mais exigentes. Cinco horas – boa parte delas a subir – para sorver as mais espetaculares vistas do maciço do Fitz Roy. Três horas de deslumbre e as duas últimas um verdadeiro teste à resistência física e perseverança. A recompensa, está guardada para o fim. E como todo o esforço vale a pena…
A ideia é fazer um ‘loop’, começar num ponto, atingir as prometidas lagoas e regressar por outro caminho. Seguiremos uns quilómetros de carro pela estrada na qual furaremos o pneu e iniciamos a caminhada na hosteria do Pilar.
Esqueceremos, até ao dia seguinte, o carro ‘manco’ e celebramos a fortuna do grupo se ter reencontrado quando, sem rede de telemóvel, e depois de divergirmos caminhos, tudo levava a crer que usufruiríamos desta experiência separadamente. Ainda bem que assim não é.
A primeira parte do trajeto tem tudo para correr mal. O caminho não está propriamente bem assinalado, mas depois do primeiro quilómetro já não há como enganar. Os problemas podem surgir no início, porém algum sentido de orientação e um mínimo de experiência leva-nos aonde queremos.
Sandra, Vânia e Patrícia estão mais adiante. Eu e Cristóvão ficámos para trás na vã tentativa de mudar o pneu e reencontrar o grupo. Quando retomamos o caminho, deparamo-nos com algumas das gentis indicações do trio dianteiro. Setas improvisadas com belos recursos da natureza. Até que um quarteto de caminhantes nos aborda em inglês, informando-nos de que as donzelas esperam por nós a uns 10-15 minutos de passo regular. Assim é. O primeiro piquenique improvisado, pois o corpo já pede combustível. Sem imaginar do quanto necessitaria. Vale-nos a previdência.
As horas passam sem que nos apercebamos. A cada passo temos um ângulo ou cenário diferentes. A dificuldade é fixar a nossa atenção num ponto óbvio. Vemos glaciares. Presenciamos pequenas avalanches. Temos fauna luxuriante. Muito verde, azul e branco. Em tons envolventes. Aveludados. Um lugar que parece de outro planeta. E é em foto invulgar que o celebraremos (no fim deste artigo).
Continuaremos a subir até a um planalto aberto no qual temos de decidir: ou regressamos já a El Chalten, ficando-nos por uma bela caminhada, ou atacamos difícil ascensão, com prometida recompensa. Unanimidade na vontade do sacrifício.
Passaremos por pequeno acampamento ‘selvagem’ (pode-se pernoitar nos acampamentos agrestes de Poincenot ou Laguna Capri, mas há um conjunto de recomendações a ter em conta atempadamente, junto das autoridades do parque), com dois wc montados. Parece a única infraestrutura não natural. Há um curso de água cristalina no qual reabastecemos. A dura subida bem vai exigir regular hidratação.
As placas indicativas do que falta percorrer vão dando animo. E quando cumprimos o nono de10 quilómetrossomos invadidos por franco entusiasmo, que logo é refreado: o percurso é ingreme, irregular. Exige o mínimo de condição física. Inevitavelmente, o grupo parte-se. Há quem esteja mais enérgico e com vontade indomável de chegar rápido. Fico para trás. Há a quem ajudar…
Avançamos por encosta escarpada, com trilho de pedras soltas e em roteiro sinuoso. Por momentos, há quem pense que não vai conseguir…
Quem está cansado pergunta, insistentemente, a quem baixa a montanha quanto tempo falta para o paraíso. As respostas nunca começam por ser animadoras. Longe do esperado. “Mas a recompensa vale MESMO a pena”, dizem-nos, invariavelmente. É assim que o corpo e mente se unem num sonho que ainda não sabemos bem qual é. Prefiro a surpresa do deslumbre do que estar demasiado documentado do que vou encontrar. Não tem o mesmo sabor…
Alguém à frente grita. Entusiasmo puro, genuíno. E o passo acelera. Quem ajudo larga-me a mão e avança. E logo para. Afinal, ainda há uma colina íngreme para transpor antes do prometido Éden. São mais 10 minutos. Apenas uns minutinhos… para completar700 metrosde desnível desde o início da aventura.
Quando, finalmente, atingimos o primeiro ‘miradouro’, sentimos que cada um dos milhares de passos dados nestes10 quilómetrosvaleu. Cada gota de suor, uma benção. Cada momento de desânimo, um ensinamento. Cada segundo em que alguém (que não eu) pensou desistir, apenas um teste.
O desejado Fitz Roy ali, imponente. E, a seus pés, o Lago de los Três, qual laguna blanca. Gelada. Imaculada. Um glaciar. Na ingreme encosta do poderoso maciço, três pontinhos negros. E um rastro. Loucos que se atrevem a tentar escalar esta preciosidade. Apercebo-me que é coisa que um dia gostava de fazer. E que, seguramente, não vai passar de um sonho…
Ainda podemos avançar um pouco mais. A mente está revigorada e a Laguna Sucia bem vale o pulinho. Resultado? Novo arrebatamento! Um azul espesso turquesa que nos hipnotiza quando o sol consegue, efemeramente, rasgar um céu que, cá em cima, teima em ser carregado. Quase me torno religioso…
Toda esta vista merece banda sonora. E o fiel mp3 volta a entrarem cena. Celebroa que bem pode ser a mais bela caminhada da minha vida.  
Regressar é desafio igualmente penoso (10 quilómetros mais), até pelo perigo da descida. Mas alma plena faz-nos voar. E quando boa parte do caminho é novidade, com mais glaciares, lagos, miradouros e verdes de todas as cores, o entusiasmo renova-se por si. Até chegarmos, em exausta êxtase, às barbas de El Chalten. .

Rui Barbosa Batista
Um mix de jornalista, líder e cronista de viagens, cumpri em 2016 uma centena de países no currículo. Cobri noticiosamente os Jogos Olímpicos na China, o Mundial de futebol na África do Sul ou os Jogos Europeus no Azerbaijão, mas o que me apaixona verdadeiramente são as pessoas e tudo o que (ainda) não conheço. Aventuras em inóspitos desertos, desafiantes glaciares, imponentes vulcões ou sublimes fiordes juntam-se ao doce prazer de cidades charmosas, países remotos e culturas exóticas. De tudo um pouco é feita a minha experiencia no globo. Continuamos juntos?